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Mateus 28.19: O batismo de Jesus era em nome da Trindade?

Atualizado por último 17/04/2026

O rito de batismo cristão atual segue a fórmula que Jesus teria dado após ter sido ressuscitado, como é muito conhecida: Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século. (JFA Mateus 28:19-20). Porém, muitas pessoas têm se indagado por que este batismo em nome da Trindade não aparece no livro dos Atos, e em nenhum outro lugar da Bíblia, antes só aparece neste versículo. Por que os discípulos não realizaram o batismo dessa forma? Qual batismo seria o correto na Bíblia e por que em Atos só vemos acontecendo o batismo em nome do Senhor Jesus?

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Qual é a contradição com o batismo em nome da Trindade, de Mateus 28:19?

Ora, para os leitores atenciosos da Bíblia, causa no mínimo um pouco de curiosidade tentar entender a razão pela qual Jesus teria mandado seus discípulos realizarem o batismo em nome da Trindade, mas no livro dos Atos, embora sejam relatadas várias cenas de batismo, em nenhuma delas se faz da forma que seu Senhor mandou. Vamos conferir.

Respondeu-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo.

(JFA At 2:38)

porquanto não havia ainda descido sobre nenhum deles, mas somente haviam sido batizados em o nome do Senhor Jesus.

(JFA At 8:16)

E ordenou que fossem batizados em nome de Jesus Cristo. Então, lhe pediram que permanecesse com eles por alguns dias.

(JFA At 10:48)

Eles, tendo ouvido isto, foram batizados em o nome do Senhor Jesus.

(JFA At 19:5)

E agora, por que te demoras? Levanta-te, recebe o batismo e lava os teus pecados, invocando o nome dele.

(JFA At 22:16)

Por que os discípulos não batizaram em nome da Trindade, conforme o Senhor teria lhes ordenado?

O comentário da Bíblia de Jerusalém, uma das mais respeitadas obras cristãs no que diz respeito à pesquisa acerca da redação do texto bíblico, traz a seguinte informação a respeito do batismo em nome da Trindade de Mateus 28:19:

É possível que, em sua forma precisa, essa fórmula reflita influência do uso litúrgico posteriormente fixado na comunidade primitiva.
Sabe-se que o livro dos Atos fala em batizar “no nome de Jesus” (cf. At 1,5+; 2,38+). Mais tarde deve ter-se estabelecido a associação do batizado às três pessoas da Trindade.
Quaisquer que tenham sido as variações nesse ponto, a realidade profunda permanece a mesma. O batismo une à pessoa de Jesus Salvador; ora, toda a sua obra salvadora procede do amor do Pai e se completa pela efusão do Espírito.

Ou seja, os pesquisadores da Bíblia de Jerusalém não deram provas, mas admitiram a possibilidade deste trecho neste versículo não serem as reais palavras que Jesus utilizou. O atual versículo refletiria uma forma de batismo que surgiu em comunidades que viveram posteriormente aos tempos bíblicos.

Bíblia de Jerusalém - Paulus Editora

Na verdade, hoje sabemos que nenhum manuscrito bíblico anterior ao século 4 possui a versão do batismo trinitário de Mateus 28:19.

Os manuscritos em grego (usados para traduzir as bíblias cristãs do relato (evangelho) de Matias/Mateus existentes antes dessa época são:

  • P1 (entre os anos 250-300, com fragmentos do cap. 1), 
  • P45 (aprox. ano 250; fragmentos dos caps. 20 e 21), 
  • P53 (contém fragmentos do cap. 26:29-40), 
  • P64 e P67 (séc. III, contendo trechos dos caps. 3, 5 e 26), 
  • P70 (fragmentos dos caps. 2, 3, 11, 12 e 24), 
  • P77 (início do séc. III, contendo o cap. 23:30-39), 
  • P104 (150-200, mede apenas 6-9 cm, contendo o cap. 21:34-37,43,45).

Os manuscritos do século 4 mais antigos que possuem este texto de Mateus com a versão do batismo em nome da Trindade são os códices Vaticanus e Sinaiticus. De acordo com as enciclopédias Britânica e Católica, ambos manuscritos foram produzidos entre os anos 337 e 361, muito provavelmente a pedido dos imperadores romanos que governavam na época. Eles deveriam compor a biblioteca de Constantinopla ou serem lidos nas igrejas dali já que, por este tempo, o cristianismo estava se tornando a religião oficial do império.

Na altura desses anos, desde o século anterior, estava em alta entre os líderes cristãos a discussão a respeito da divindade de Jesus e do Espírito Santo. Eles também discutiam se o Espírito seria realmente uma pessoa ou não. Essa discussão só foi resolvida entre muitos deles no decorrer do século 4, começando com o primeiro concílio que aconteceu em 325, na cidade de Niceia, e culminando com o de Tessalônica, por volta do ano 380.

Neste último, a decisão final foi tomada e o então imperador cristão Teodósio I decreta que todos os crentes seriam obrigados a acreditar que Deus é uma Trindade, como vemos abaixo:

De acordo com os ensinamentos apostólicos e a doutrina do Evangelho, que nós creiamos em uma só divindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo, em igual majestade e em uma Santíssima Trindade.
Nós autorizamos que os que obedecerem a essa lei assumam o título de Cristãos Católicos. Porém, para os outros, uma vez que em nossa opinião, são loucos tolos, nós decretamos que recebam o nome ignominioso de heréticos, os quais não deverão ter a presunção de dar aos seus conventículos o nome de igrejas.
Eles irão sofrer em primeiro lugar o castigo da condenação divina e, em segundo lugar, a punição que a nossa autoridade, de acordo com a vontade do Céu, decidir infligir.

Fonte: Histórias de Roma, o Édito de Tessalônica.

De onde surgiu o batismo em nome da Trindade então?

Embora o batismo em nome da Trindade seja frequentemente associado pela cristandade ao batismo de Jesus, onde ele é batizado por João, o “espírito” de Deus desce em formato corpóreo de pombo e Deus Pai fala com ele dos céus (Mt 3:13-17), em nenhum momento estes versículos mencionam a palavra “Trindade” ou “Santíssima Trindade”, nem dizem que “as três pessoas da divindade” se reuniram em seu batismo, tão pouco afirma que Deus é três pessoas ou algo do tipo. Esses tipos de argumentos são conjecturas, interpretações ou construções teológicas posteriores, pois o texto em si nada disso afirma.

representação ilustrativa do batismo de Jesus por João (Mateus 3:13-17), onde diz-se que a santíssima trindade aparece

Como vimos, nenhum manuscrito bíblico anterior ao século 4 contém o batismo em nome da Trindade de Mateus 28:19, mas havia documentos que o mencionaram. Porém, eram instruções comunitárias (para uma comunidade específica), e não citações bíblicas em si. Um deles é o Didaquê, que foi redigido entre o final do 1° e início do 2° século. No capítulo 7, ele diz assim:

No que diz respeito ao batismo, batizai em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo em água corrente. Se não tens água corrente, batiza em outra água; se não puderes em água fria, faze-o em água quente. Na falta de uma e outra, derrama três vezes água sobre a cabeça em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
Mas, antes do batismo, o que batiza e o que é batizado, e se outros puderem, observem um jejum; ao que é batizado, deverás impor um jejum de um ou dois dias.

Como percebemos, as instruções deste documento aparentam se direcionar para uma comunidade que ainda está em formação.

E, embora o Didaquê seja frequentemente chamado de “Instrução dos doze apóstolos”, estas instruções não parecem ter sido provenientes dos doze, já que eles não realizaram sequer um batismo em nome da Trindade, como verificamos em todo decorrer do livro dos Atos.

Assim, não é difícil criar uma assimilação entre o comentário da Bíblia de Jerusalém, que lemos mais acima, e o relato histórico trazido pelo Didaquê, já que era uma comunidade primitiva, estava nascendo, era posterior aos tempos bíblicos (depois do ano 70) e menciona o batismo trinitário.

Como existe a probabilidade deste documento ter sido redigido originalmente em Antioquia da Síria, também não é insensato associá-lo a Inácio de Antioquia, um dos principais pais do cristianismo. Mas isso é uma sugestão pessoal.

Em contrapartida, 2 capítulos adiante, este mesmo documento também fala de batismo apenas em nome do Senhor, como lemos abaixo:

Ninguém coma nem beba de vossa Eucaristia, se não estiver batizado em Nome do Senhor. Pois a respeito dela disse o Senhor: “Não deis as coisas santas aos cães!”.

Justino de Roma, um apologeta cristão do século II, reproduz esta mesma forma de batismo trinitário ensinada no Didaquê para a comunidade da qual ele fazia parte. Ele registra as seguintes palavras:

Todos os que se convencem e acreditam que são verdadeiras essas coisas que nós ensinamos e dizemos, e prometem que poderão viver de acordo com elas, são instruídos, em primeiro lugar, para que com jejum orem e peçam perdão a Deus por seus pecados anteriormente cometidos, e nós oramos e jejuamos juntamente com eles.
Depois os conduzimos a um lugar onde haja água e pelo mesmo banho de regeneração, com que também nós fomos regenerados, eles são regenerados, pois então tomam na água o banho em nome de Deus, Pai soberano do universo, e de nosso Salvador Jesus Cristo e do Espírito Santo.

Patrística, Justino de Roma, I e II Apologia, Diálogo com Trifão, págs. 40-41 (61.2-3), Paulus Editora, 2ª Edição.

Justino viveu entre os anos 100-165.

Depois dele, um homem chamado Taciano redigiu, por volta do ano 170, uma obra intitulada Diatessaron, onde unificou os 4 relatos (evangelhos) em um volume só, em aramaico ou siríaco. Nessa obra Taciano também relatou que o Senhor teria dito as palavras que atualmente encontramos nas traduções bíblicas mais comuns (“batizando em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo”).

Dura Parchment 24, fragmento do Diatessaron de Taciano, em edição fac-símile (Kraeling 1935).
Dura Parchment 24, fragmento do Diatessaron de Taciano, em edição fac-símile (Kraeling 1935).

Taciano foi um convertido ao cristianismo e estudou com o próprio Justino, mencionado acima. Ou seja, ele teve contato com a fórmula batismal trinitária da comunidade cristã primitiva, e talvez por isso a tenha trazido isto à sua obra.

Existe uma “versão verdadeira” ou “original” do texto de Mateus 28:19? Se sim, onde ela está?

Eusébio de Cesareia, o pai da história da igreja cristã.

Não obstante a estas três obras anteriores ao século 4 que citam o batismo em nome da Trindade, existem registros do historiador Eusébio de Cesareia, também anteriores a este século, que mencionam o texto de Mateus 28:19 de outra forma.

Enquanto os outros mencionaram instruções comunitárias específicas para se batizar em nome da Trindade, Eusébio, por outro lado, faz citações diretas àquela cena mencionada em Mateus 28:19, onde claramente afirma que o Senhor, na verdade, usou outras palavras quando falou com seus discípulos. Vamos conferir algumas dessas menções feitas por ele:

Mas os outros apóstolos que eram perseguidos de várias maneiras, no intuito de destruí-los, foram expulsos da terra de Judéia e seguiram caminho pregando o evangelho a todas as nações, confiando no socorro de Cristo, que disse: “Ide e ensinai todas as nações em meu nome”.

Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica, pág. 82. CPAD. Edição do Kindle.

Mas, como esses assassinos dos apóstolos foram levados na redução (da cidade), e sofreram o castigo que mereciam, não é necessário dizer, pois as coisas que foram feitas a eles podem ser facilmente encontradas no registro dos romanos por Flávio Josefo.
Após a matança destes, portanto, e a redução da metrópole de seu reino, eles – que restaram daqueles servos que primeiro ouviram dizer por seu Senhor:
– “Os primeiros chamados não eram dignos; mas saí nos caminhos e veredas, e todos que encontrardes, chamai para a festa”
– cumpriu até mesmo a coisa ordenada.
Nosso Salvador disse a eles, portanto, depois de Sua ressurreição: “Ide e fazei discípulos de todas as nações em meu nome

Eusébio de Cesareia, Teophania, Livro 4.16.

Sou novamente compelido a recorrer à questão de (sua) causa, e confessar que eles (os discípulos) não poderiam ter empreendido este empreendimento de outra forma, a não ser por um poder divino que excede o do homem, e pela assistência dEle. que lhes disse: “Ide, e fazei discípulos de todas as nações em meu nome.
E, quando Ele disse isso a eles, Ele anexou a isso a promessa, pela qual eles deveriam ser tão encorajados, tão prontamente a se entregarem às coisas ordenadas. Pois Ele lhes disse: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo.

Eusébio de Cesareia, Teophania, Livro 5.49.

Com uma palavra e voz Ele disse aos Seus discípulos: “Ide, e fazei discípulos de todas as nações em Meu Nome, ensinando-os a guardar todas as coisas que Eu vos ordenei,” e Ele juntou o efeito à Sua Palavra; e em pouco tempo toda raça de gregos e bárbaros estava sendo levada ao discipulado,

Eusébio de Cesareia, Demostratio Evangelica, Livro 3, cap. 6.

E uma vez que a Palavra predisse que o profeta seria levantado para eles da circuncisão, nosso Senhor e Salvador, sendo Ele mesmo o predito, corretamente disse:
– “Não vim senão às ovelhas perdidas da casa de Israel”.
E ordenou aos seus apóstolos, dizendo:
– “Não entreis pelo caminho dos gentios, e em nenhuma cidade dos samaritanos não entreis, mas ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel”; mostrando claramente que Ele foi enviado principalmente a eles como a profecia exigia.
Mas quando eles não quiseram receber Sua graça, Ele os repreendeu em outro lugar, dizendo:
– “Porque eu vim, e não havia ninguém, chamei e não havia quem ouvisse”.
E Ele lhes diz:
– “O reino de Deus vos será tirado, e será dado a uma nação que dê os seus frutos.”
E Ele ordena a Seus próprios discípulos após sua rejeição: “Ide e fazei discípulos de todas as nações em meu nome”.

Eusébio de Cesareia, Demostratio Evangelica, Livro 4, cap. 11.

Pois Ele não os ordenou simples e indefinidamente fazer discípulos de todas as nações, mas com a necessária adição de “em meu nome.
E o poder de Seu Nome sendo tão grande, que o apóstolo diz:
– “Deus lhe deu um nome que está acima de todo nome, para que em nome de Jesus se dobre todo joelho, tanto das coisas do céu como da terra, e coisas debaixo da terra”,
Ele mostrou a virtude do poder em Seu Nome escondido da multidão quando Ele disse aos Seus discípulos:
Ide, e fazei discípulos de todas as nações em Meu Nome.”

Eusébio de Cesareia, Demostratio Evangelica, Livro 3, cap. 7.

Mas quando eu desvio meus olhos para a evidência do poder da Palavra, que multidões ela conquistou e que igrejas enormes foram fundadas por aqueles discípulos iletrados e mesquinhos de Jesus, não em lugares obscuros e desconhecidos, mas nas cidades mais nobres; quero dizer na Roma Real, em Alexandria e Antioquia, em todo o Egito e Líbia, Europa e Ásia, e em aldeias e lugares do país e entre as nações. Sou irresistivelmente forçado a refazer meus passos e procurar sua causa, e confessar que eles só poderiam ter tido sucesso em sua ousada aventura, por um poder mais divino e mais forte que o do homem, e pela cooperação daquele que disse-lhes: “Fazei discípulos de todas as nações em meu nome.

Eusébio de Cesareia, Demostratio Evangelica, Livro 3, cap. 7.

Ora, os relatos de Eusébio estão nitidamente em melhor concordância com as menções de batismo no livro dos Atos e com o próprio contexto histórico bíblico em si.

E como se não bastasse essas evidências claras de palavras que compõem o verdadeiro texto perdido de Mateus 28:19, temos uma outra pista, na verdade um outro testemunho. Jerônimo, um padre que traduziu a Bíblia para o latim no século 4, menciona que o manuscrito original aramaico do relato de Mateus encontrava-se ainda em seu tempo na biblioteca de Cesareia, onde Eusébio estudou. Ele diz o seguinte:

No Evangelho segundo os Hebreus, que está escrito na língua caldeu e síria, mas em caracteres hebraicos, e é usado pelos nazarenos até hoje (refiro-me ao Evangelho segundo os Apóstolos, ou, como geralmente se sustenta, o Evangelho segundo Mateus, cuja cópia está na biblioteca de Cesareia) …

Jerônimo, Against the Pelagians (Book III.2); fonte: New Advent.

Sendo assim, podemos concluir com evidências históricas reais o que a Bíblia de Jerusalém sugeriu: que o atual texto de Mateus 28:19 presente nas traduções bíblicas mais comuns não reflete as reais palavras de Jesus acerca de seu batismo ou imersão.

Logo, esta forma de batismo em nome da Trindade surgiu à partir da crença de certos pais da igreja entre o final do 1º e início do 2º século. Tratava-se de uma instrução batismal para a comunidade deles. Ela somente aparece em um texto bíblico compilado por volta do ano 175, no Diatessaron de Taciano, e depois nos manuscritos bíblicos do século 4, depois que a doutrina da trindade foi muito trabalhada pelos teólogos primitivos da Igreja Cristã, como Tertuliano de Cartago (150-220).

Vale ainda lembrar que, por volta do ano 303 (início do século 4), o imperador Romano Diocleciano ordenou a destruição de muitos manuscritos. Assim, neste mesmo século, novos manuscritos precisaram ser criados, e isso pode ter contribuído com a introdução do texto batismal do Didaquê nos manuscritos bíblicos em grego (os manuscritos bíblicos aramaicos (idioma que Jesus falava) que remontam aos séculos 2 e 3 não possuem o texto final de Mateus 28:19, vide Peshitta Sinaitica e Curetoniana).

Por fim, qual é o verdadeiro texto de Mateus 28:19?

Ora, próprio Livro dos Atos dos Apóstolos testemunha de que o batismo em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo não são as reais palavras que Jesus teria dito aos seus discípulos (vide At 8:16, 10:48, 19:5 etc.). E agora temos essa grande contribuição histórica legada por Eusébio de Cesareia, que valida o texto de Atos e confirma um contexto bíblico mais coerente.

Portanto, mediante a todas essas evidências textuais históricas e bíblicas, a controvérsia que foi a doutrina da Trindade nos séculos 2, 3 e até no decorrer do século 4 no cristianismo, a confissão da Bíblia de Jerusalém e dentre outras alegações não trazidas aqui desta vez, temos motivos para acreditar que, de fato, e infelizmente, o atual texto de Mateus 28:19 nas bíblias comuns, proveniente dos manuscritos gregos posteriores ao século 4, não reflete as verdadeiras palavras ditas pelo Messias.

Enquanto isso, as várias citações diretas de Eusébio de Cesareia a este texto, e a concordância de outros autores de que a biblioteca onde ele estudou (destruída no século 7) continha uma cópia do manuscrito original de Mateus (escrito em aramaico), nos levam a confiar que o Senhor, na verdade, disse aos seus discípulos: “Vão, façam discípulos de todas as nações em meu nome.”; e isto concorda com o contexto histórico bíblico também.

E como se não bastasse, outros textos bíblicos comprovam que o batismo era feito no nome de um indivíduo só, como 1Co 1:13-15, Rm 6:3 e Gl 3:27.

Ou seja, não há sustentação na própria Bíblia para o batismo em nome da Trindade; o atual texto de Mateus 28:19 encontra-se sozinho em contradição com vários outros versículos.

Mas será que uma modificação como essa pode realmente ter acontecido com o texto da Bíblia Sagrada? 

Essa é uma realidade difícil de se digerir, de fato. Mas (infelizmente) posso dar como prova de que isso realmente aconteceu, mostrando a situação de um outro texto encontrado em certas bíblias que tem a mesma temática: a doutrina da Trindade.

Este texto se tornou muito popular na idade moderna, sendo reproduzido nas consagradas bíblias King James (BKJ), Almeida Revista e Corrigida (ARC) e Almeida Corrigida Fiel (ACF). Eu me refiro ao texto adicional encontrado nos versículos de 1ª João 5:7-8, presente nessas três traduções bíblicas (e dentre outras), como se segue:

Porque três são os que testificam no céu: o Pai, a Palavra, e o Espírito Santo; e estes três são um.  E três são os que testificam na terra: o Espírito, e a água e o sangue; e estes três concordam num.

(ACF’11 1Jo 5:7-8)

Agora, comparando estes mesmos versículos em bíblias modernas, como a Nova Versão Internacional (NVI), Nova Almeida Atualizada (NAA), Tradução Brasileira (TB), Bíblia de Jerusalém (BDJ) e tantas outras, ele se encontra assim:

Há três que dão testemunho: o Espírito, a água e o sangue; e os três são unânimes.

(NVI 1Jo 5:7-8)

Se você tiver essas traduções bíblicas impressas em casa, pode comparar por si mesmo(a); ou utilizar um aplicativo de celular para isso.

Uma diferença “gritante” como essa não é simplesmente de se ignorar, não é mesmo?! O que aconteceu com este texto? Por que os editores das bíblias modernas o removeram? Precisamos explicar isso!

Neste caso, o referido trecho adicional sugestivo à Trindade, encontra-se em apenas 6 ou 7 manuscritos gregos, contra cerca de 550 que não o possuem.

E todos os que o possuem são posteriores ao século 12, tendo sido herdados de uma versão latina da Bíblia, do século 6, embora a Bíblia completa em latim tenha sido escrita no século 4, pelo padre Jerônimo.

A Bíblia de Jerusalém explica isso em comentário, também a NVI e mais ainda o aparato crítico do dr. Wilbur Pickering, um erudito do texto bíblico em grego, que dá até os nomes dos manuscritos que contém o trecho adicional. Embora seja um cristão que normalmente acredita na doutrina da Trindade, por ser um pesquisador acerca da redação do texto bíblico, ele explica que este trecho adicional de 1 João 5:7-8 alusivo à Trindade presente na BKJ, ARC e ACF, não são originais.

Ou seja, aquelas palavras são claramente uma adição e não fazem parte das palavras originais ditas por João em sua carta. Há provas históricas de que essas palavras foram inseridas de maneira forçada no texto bíblico a partir da 2ª e 3ª edições do Textus Receptus, que é o texto bíblico em grego no qual as bíblias King James, ARC e ACF tomaram como base para sua tradução. Mas, como esse não é o objeto de nosso estudo agora, não vou me alongar nisso ainda mais.

Você poder ler um estudo específico que escrevemos aqui no Blog Bíblia se Ensina acerca dessa adição de 1 João 5:7-8 para saber mais detalhes.

Como pode Deus ter permitido a Bíblia ter sido a Bíblia alterada por homens?

Não é fácil encarar essa realidade, ainda mais para os cristãos que (geralmente) estão tão acostumados a ouvir que Deus preservou sua palavra. Porém, essas variações do texto bíblico estão aí, elas existem e não podem ser ignoradas.

Na verdade, até mesmo Moisés, em seu tempo, havia alertado aos israelitas que não acrescentassem nem retirassem nada do que ele lhes dizia, veja Deuteronômio 4:2 e 12:32. Ou seja, para ele dizer isso, é porque havia possibilidade de modificação do conteúdo de suas palavras! Mas o ser humano deveria se manter fiel na transmissão e preservação delas (cf. Dt 6:6-7).

No livro da Revelação (Ap) 22:18-19, também vemos refletidas as palavras de Moisés acerca da preservação do texto bíblico. Aqui lemos que alguém poderia até retirar ou acrescentar palavras deste livro, no entanto sofreria os danos descritos nele também.

Mas como sabemos, então, até onde a Bíblia é confiável? Como saberemos se seu conteúdo foi mais modificado do que isso ou não? Em quais versículos podemos confiar?

Ora, Deus não seria um justo juiz se ele não desse o livre arbítrio ao homem. E, em todo caso, ele deixou testemunhos acerca do texto bíblico verdadeiro, é possível constatar isso fazendo comparações e estudando os manuscritos bíblicos antigos; basta pesquisarmos para encontrar tudo.

Podemos identificar essas modificações através das evidências textuais históricas já conhecidas, especialmente com a ajuda da crítica textual, até certo ponto.

Jesus/Yeshua, portanto, ensina seus discípulos a realizarem o ritual de imersão nas águas em seu nome quando ainda estava em vida, basta ver João 3:22,26 e 4:1-2.

Jesus ensinando seus discípulos a batizar/imergir em seu nome, conforme versículos de João 4:1-2.

Com o fim do ministério de João, o imersor, aqueles que eram imergidos por ele no “batismo de João”, passaram a ser imergidos no batismo de Jesus, em nome de Yeshua/Jesus e pelos discípulos de Jesus (vide Atos 19:3-5).

O batismo, isto é, a imersão, é o ritual que sela a iniciação de uma pessoa como discípulo do Messias.

Mas quem, hoje em dia, realiza o batismo apenas em nome do Senhor Jesus/Yeshua?

Algumas denominações cristãs, ao longo do tempo, realizavam o batismo apenas no nome do Senhor Jesus. Geralmente são chamadas de unicistas. No entanto, como a doutrina cristã da Santíssima Trindade é comum a todo cristianismo, consequentemente a quase totalidade das igrejas, então prevalece o batismo trinitário mencionado em Mateus 28:19 das traduções bíblicas comuns.

Ora, detalhar as denominações cristãs não é nosso objeto de estudo agora, caso o leitor tenha curiosidade pode fazer suas próprias pesquisas na internet. Não obstante, traremos aqui um contexto histórico real, mas pouco conhecido por muitas pessoas, e um contexto bíblico perceptível nas Escrituras, porém pouco explorado por estar ofuscado pelas interpretações religiosas.

Depois de descortinar esse pano de fundo histórico e atual, vamos entender como deveria ser, de fato, o batismo em nome do Senhor Jesus.

O primeiro fato é que a comunidade de discípulos de Jesus nunca deixou de integrar o povo de Israel, ou seja, nunca deixou de atender as perspectivas bíblicas ligadas ao povo judeu; nunca abandonou a identidade bíblica que Deus deu a este povo no passado, principalmente através de Abraão, de Moisés e de outros profetas.

Com isso, eu quero dizer que os discípulos dele nunca se apartaram da obediência a certos mandamentos de Deus que definem a identidade do povo. Mandamentos estes que foram reinterpretados pela teologia cristã posterior e (infelizmente) subvertidos por elas. Eis alguns versículos que mostram como os discípulos de Jesus mantiveram sua identidade ligada aos costumes do povo bíblico: Lucas 23:53-56, Atos 10:9-14, 18:21, 24:14, 21:20-24, 25:8, 28:17 etc.

Até mesmo estrangeiros, já ligados ao povo de Israel, mantinham costumes bíblicos que Deus deu a este povo, embora em nível mais básico, como reuniões comunitárias sabáticas (At 13:14-16, 16:13-14), comemoração das festas bíblicas (At 8:27), etc.

Ou seja, os discípulos de Jesus/Yeshua nunca intentaram promover a separação entre os gentios e o povo judeu.

Eles nunca apoiaram a criação de uma nova religião, nunca afirmaram que o povo de Deus foi rejeitado e substituído por outro povo ou outra comunidade; veja Romanos 11:1-5, por exemplo.

Pelo contrário, os não judeus é que foram integrados às comunidades do povo de Israel (incluindo a comunidade de discípulos de Jesus), ainda como não judeus, e passaram a formar com eles um povo só, vide Atos 15:19-21+, Romanos 11:16-18, Efésios 2:11-13 etc.

O texto de Atos 21:20 é um dos principais que provam claramente que os judeus que acreditaram em Jesus/Yeshua mantiveram sua identidade bíblica ligada à Lei de Deus. Mas isso também o próprio chamado “apóstolo Paulo” diz claramente em Atos 28:17, ao alegar que não lutou contra os costumes de seus antepassados. E não poderia ser diferente vindo de discípulos de Jesus, pois ele mesmo disse que não veio para abolir a Lei divina, e que qualquer que tentasse invalidar ainda que o menor dos mandamentos, seria considerado o menor no reino de Deus (Mt 5:17-19).

Ora, essas comunidades judaicas que acreditam que Jesus/Yeshua é o Messias prometido sempre existiram ao longo da história (inclusive existem no Brasil). Aliás, historiadores cristãos relataram sua existência ao longo do tempo. No entanto, devido a perseguição às comunidades judaicas, não tiveram chance de se desenvolver tanto.

Nós escrevemos uma pesquisa a respeito disso, publicada em nosso estudo intitulado “A Seita do Nazarenos: quem foram eles na Bíblia e ao longo da história“.

Sendo assim, existe um povo que preservou o modelo original do ritual de batismo/imersão em nome de Jesus/Yeshua ao longo da história.

Aquele batismo visto em várias cenas do livro dos Atos dos Apóstolos (2:38, 19:5 etc.), porém que preserva mais do que simplesmente as palavras proferidas ao se batizar/imergir nas águas, mas também a identidade bíblica que tanto um judeu que crê em Yeshua deve ter, como os estrangeiros monoteístas que se aproximam do Messias. Pois esse batismo/imersão é a iniciação de alguém na caminhada para se tornar um filho de Abraão, o que só uma comunidade judaica pode ensinar, de fato, o que é (vide Gl 3:26-29).

Logo, para se receber esse batismo original, é necessário uma ligação com esta comunidade judaica que, em meio aos enormes desafios sofridos em várias regiões do mundo ao longo do tempo, ainda preserva a identidade bíblica original do Messias. Haja vista que o estrangeiro Cornélio foi direcionado a um líder dessa comunidade (At 10:25-36), também um etíope fiel (At 8:26-31), uma vendedora de púrpura (At 16:12-15), um carcereiro (At 16:27-33), e tantas outras pessoas.

A nossa história posterior à queda de Jerusalém sofrida no ano 70 foi dominada por religiões diversas e marcada por perseguições ao povo judeu. Portanto, estes séculos passados não proporcionaram a tantas pessoas contatos com as comunidades judaicas como vemos no decorrer do livro dos Atos. Mas, desde o século passado, quando Israel se tornou um país de novo ao recuperar parte de seu território e alcançar soberania diante das nações, há desfruto de maior liberdade e comunicação, não obstante às guerras que se seguem eventualmente contra esta nação.

Por aqui, conhecemos e nos ligamos à Comunidade Judaica Netzari do Pará através de estudos bíblicos online primeiramente, a qual, depois de estudar, ouvir e analisar, consideramos ser a comunidade oficial preservadora da mensagem, legado e identidade original de Jesus/Yeshua, tudo dentro de seu devido contexto bíblico vivenciado e transmitido pelo povo de Israel (o que inclui os apóstolos – cf. Rm 3:1-2, 9:4, 11:1). Mas existem outras comunidades que, hoje em dia, não são difíceis ser encontradas pela internet e Youtube.

2 Comentários

  1. tatu tatu

    No texto majoritário e família 35 se encontra essa forma batismal, além de que nenhum dos exemplos que você mencionou de pais da igreja menciona sequer a palavra batismo, o que nos indica que eles não mencionaram o verso completamente

  2. Elio Elio

    Sim, e qual a diferença ? Quem vai para o céu, quem batiza segundo o Evangelho de Marcos ou segundo Atos? Ou quem vive sem avareza, esperando que somente pela Graça há salvação?

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