Atualizado por último 13/05/2026
O versículo de Atos 24:5 revela algo não tão notado por muitos leitores da Bíblia, ele diz o seguinte: “Temos achado que este homem é uma peste, e promotor de sedições entre todos os judeus, por todo o mundo; e o principal defensor da seita dos nazarenos…” (Bíblia Almeida Corrigida Fiel). Afinal de contas, o que realmente é essa “seita dos nazarenos”, da qual o chamado “apóstolo Paulo” fazia parte? Qual é o verdadeiro significado da palavra “seita”? Os discípulos de Jesus realmente representavam um novo partido religioso judaico ou uma nova religião apartada do judaísmo e do povo de Israel? Esta “seita” realmente se tornou uma igreja cristã que conhecemos hoje em dia?
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Qual a origem da palavra “nazareno” na Bíblia?
No texto em grego dos Escritos Nazarenos (isto é, “Novo Testamento”), em Atos 24:5, consta a palavra Ναζωραιος (Nazoraios), comumente traduzida por “nazareno“. Em certo ponto, esta palavra tornou-se o adjetivo pátrio/apelido de Jesus, porque desde a infância ele viveu na cidade de Nazaré (Mt 2:23). Confira Mt 26:71, Mc 10:47, Lc 18:37, 24:19, Jo 18:5,7, 19:19, Atos 2:22, 3:6, 4:10, 6:14, 22:8, e 26:9. É, naturalmente, por isso que seus discípulos também foram apelidados de “os nazarenos“, conforme lemos no versículo em questão.
Assim, o adjetivo nazaraios é proveniente do nome da cidade de Nazaré, que no grego se escreve Ναζαρεθ (Nazareth), e significa “o que é guardado”.
O nome da cidade de Nazaré tem esse significado por causa de sua origem hebraica. Vamos entender a profundidade disso em relação à pessoa de Jesus, sua missão, bem como a de seus discípulos, mais adiante.
Qual é o verdadeiro significado da palavra “seita”?
Seita é uma palavra que vem do latim sacta, cujo significado básico é “seguidor“. No texto em grego a palavra original traduzida como “seita” nas bíblias comuns é hairesis, de onde também vem a palavra “heresia“.
De acordo com o dicionário bíblico grego, a definição básica de hairesis é: Uma opinião escolhida pelo próprio indivíduo, uma seita religiosa ou filosófica, discórdia ou contenda.
E, em sua etimologia grega, hairesis quer dizer, basicamente, capacidade de escolher por conta própria. Ou seja, quando um indivíduo tomava escolha própria ou um pensamento próprio que se diferenciava da opinião social ou religiosa comum, ele era considerado um “herege”. Mais tarde, a Igreja Romana utilizou-se dessa palavra como forma de condenar todos os que se opunham à doutrina comum estabelecida pelos líderes da Igreja.
Mas, embora a insistência dos “estudiosos” cristãos em afirmar que os Escritos Nazarenos (“Novo Testamento”) foram redigidos originalmente em grego, os discípulos de Jesus eram, em sua grande maioria, judeus das terras de Israel (inicialmente), e portanto eram falantes do aramaico, e não do grego, conforme relata o historiador Flávio Josefo mais de uma vez. Somente cerca de 8 anos depois do início da comunidade, em Atos 2, é que a mensagem do Messias começou a se expandir para pessoas de fala grega (vide Atos 11:19,20).
Portanto, é improvável que milhares de discípulos de fala aramaica (o idioma em que Jesus pregava sua mensagem) ficassem sem escritos com orientações e ensinamentos dos apóstolos inicialmente.
Sendo assim, nos textos em aramaico dos discípulos de Jesus, em lugar do grego hairesis existe a palavra yulpana’ (יוּלפָּנָא), que quer dizer ensino, instrução ou doutrina.

Ou seja, enquanto as palavras “seita” e “heresia” passaram a carregar uma conotação negativa devido seu uso posterior pela Igreja Católica, nem no texto grego e muito menos no aramaico elas tinham esse sentido.
Como prova disso, basta ver os textos de Atos 15:5 e 26:5 em diversas traduções bíblicas comuns, onde a escola dos fariseus também foi chamada de “seita”, mesmo não sendo eles considerados, na época, uma “seita” no sentido que conhecemos hoje em dia; porque essa palavra apenas se referia a uma escola de ensinamentos religiosos, a uma linha de pensamento.
Especialmente no aramaico, yulpana’ designa simplesmente uma escola de ensinamento religioso, que existia entre outras escolas, como a dos fariseus, dos saduceus e dos essênios.
Logo, a tradução mais adequada para Atos 24:5, de acordo com o idioma em que se comunicavam os discípulos de Jesus (aramaico), seria:
Pois descobrimos que este homem é um destruidor e um instigador de agitação entre todos os judeus e em toda a terra; pois ele é um chefe da doutrina dos nazarenos.
Nazareno no original hebraico e seu significado.
A palavra “nazareno” deriva do hebraico “netzer“, que se localiza no texto de Isaías 11:1, como veremos abaixo. Este texto se refere a uma profecia de um descendente do rei Davi que herdaria seu trono, seria líder do povo de Israel e governaria a humanidade (vide Is 11:1-5+).
וְיָצָא חֹטֶר מִגֵּזַע יִשָׁי וְנֵצֶר מִשָּׁרָשָׁיו יִפְרֶה
veyatsa’ hoter migeza’ yishay venetser misharashayn yif’reh
E sairá um rebento (vara/ramo/broto) do tronco de Yishai (Jessé), e o ramo de sua raiz dará fruto.
Esse ramo/broto também tem o sentido de remanescente, ou seja, um restante, que sobrevive, cuja existência permanece; sobrevivente, etc.
Além disso, a palavra נֵצֶר (netser ou netzer) tem sua raiz na palavra נָצַר (natsar), que quer dizer guardar, observar, vigiar, manter, cuidar, preservar, guardar com fidelidade. Ela aparece com este sentido em textos como Êx 34:7, Dt 32:10, 33:9, Sl 25:10,21, 31:23, 32:7 etc.
Só com este conhecimento básico da língua original das Escrituras, nós já conseguimos identificar falsos ensinamentos disseminados hoje em dia pelo mundo, a respeito do Messias, sua missão, identidade e consequentemente a de seus discípulos também.
Pois o Messias é tanto um descendente do rei Davi como um guardião das coisas divinas.
Assim, se o Messias Yeshua (Jesus, o ungido) foi chamado de “nazareno”, de acordo com a profecia de Isaías (Mt 2:23), e seus discípulos foram chamados de “seita dos nazarenos”, ou seja, doutrina dos nazarenos (At 24:5), então isto quer dizer que tanto ele quanto eles deveriam ser estes guardiões, mantenedores, defensores, preservadores das coisas de Deus, como Suas leis, princípios, mandamentos, alianças, ensinamentos, características etc.
Logo, qualquer argumento ou ensinamento de que alguns dos mandamentos de Deus e características de seu povo foram descontinuados devido o Messias ter “cumprido a Lei”, não se sustenta. Pois se ele e consequentemente sua escola de discípulos são os guardiões, defensores e mantenedores, jamais deveriam se desfazer de qualquer dos mandamentos divinos, algo visto em determinados cenários religiosos de nossa atualidade.
Tal interpretação religiosa, na verdade, cria uma falsa identidade do Messias, e portanto um falso messias, bem como uma comunidade que não carrega suas características reais (embora muitas pessoas exerçam fé sincera nestes meios religiosos). Tais doutrinas religiosas não podem se considerar a “seita dos nazarenos”, isto é, os preservadores reais da identidade e legado do Messias.
Para confirmar o dito acima, podemos ler o texto de Mateus 5:17-19 na Bíblia NTLH (Nova Tradução na Linguagem de Hoje), por exemplo, que, por mais que seja uma paráfrase e não exatamente uma tradução bíblica, transmitiu melhor do que outras traduções o sentido e significado original deste texto.
Sendo assim, a comunidade original de discípulos de Jesus deve, naturalmente, preservar as características que Deus deu ao seu povo, e a comunidade primitiva de discípulos dele fez isso (Atos 21:19-24, 24:14), e ainda agregou gentios (não-judeus) a esta identidade (At 15:16-21 etc.).
Então, se qualquer denominação religiosa alega ser a comunidade oficial de discípulos do Messias, logo deve preservar estas características que tinham os discípulos diretos do Senhor, pois ele mesmo disse que muitos viriam em seu nome, identificando-se como discípulos seus, mas ele não conhece a estes que praticam transgressões às leis divinas, eles não carregam seu legado (cf. Mt 7:21-23 NVT).
O plural de netzer é netzarim (nazarenos), e aparece nas Escrituras dos profetas como referência profética aos judeus remanescentes que clamarão pelo retorno a Deus, veja Jr 31:6 e Is 49:6, por exemplo.
O termo netzarim foi utilizado no 1º século de nossa era por certo grupo de judeus invejosos para classificar a escola de discípulos do mestre Yeshua (Jesus), conforme vimos no versículo de Atos 24:5. O texto bíblico em aramaico, como mencionamos acima, traz a expressão “doutrina dos nazarenos”.
Ora, essa doutrina, naturalmente, visava chamar o povo israelita de volta para Deus e suas leis, através da mensagem de Jesus (Yeshua), assim como chamar as nações (os gentios) a retornarem às leis de Deus para eles (veja At 13:23-26, 15:15-18; cf. Lc 19:9-10 etc.).
Assim, a escola de discípulos de Jesus foi identificada com diferentes nomes no contexto bíblico, como Caminho (At 9:2, 19:9,23, 22:4, 24:14,22) e nazarenos ou “seita dos nazarenos”, conforme está em várias traduções bíblicas conhecidas (At 24:5).
Depois de alguns anos de comunidade estabelecida, em Antioquia da Síria, eles foram chamados pela primeira vez de “os do ungido“, isto é, christianos na língua grega, que foi traduzido como “cristãos” (Atos 11:26),
Mas, não obstante a isso, não podemos deixar acontecer aqui uma confusão de identidade, pois, como já dissemos antes, os discípulos do mestre Yeshua, até aquele tempo de maioria judaica, não deixou as características determinadas por Deus ao povo de Israel, ou seja, eles não constituíram uma nova religião. Portanto, eles não eram exatamente cristãos nos moldes que conhecemos hoje das igrejas cristãs e evangélicas. Nós podemos constatar isso em vários versículos já referenciados aqui.
Por exemplo, em Atos 9:1-2 Paulo pede cartas para perseguir os discípulos de Jesus que estavam nas sinagogas de Damasco. Ou seja, nota-se aqui que, mesmo depois de um certo tempo, os discípulos continuavam se reunindo nas sinagogas judaicas, junto aos outros judeus, pois não havia intenção de separar-se do povo bíblico e de seus costumes.
Se voltarmos um pouco mais atrás no texto bíblico, em Lucas 23:54-56 identificamos que os discípulos de Jesus continuavam, por exemplo, obedecendo o mandamento de descansar no dia de sábado. Eles também faziam suas reuniões sagradas neste dia, conforme Deus ordenou ambas coisas em Levítico 23:3. Pois, retomando o texto de Atos, vemos os discípulos participando das reuniões de sábado nas sinagogas judaicas, vide capítulos 13:14-15, 17:1-2 (dentre outros). Aliás, Jesus também fez isso sua vida inteira, veja Lc 4:16.
E até mesmo na cidade onde eles foram chamados de “cristãos” (christianos) pela primeira vez, é possível identificar pelo texto de Atos 15:21 que eles se reuniam nas sinagogas judaicas daquela cidade. Ou seja, os discípulos de Jesus (a “seita dos nazarenos”) não abandonaram os costumes do povo de Israel, que o próprio Deus lhes deu como características de Seu povo (cf. At 21:21-24, 25:8, 28:17 etc.).
- Veja também nosso estudo a respeito das 10 Características dos “Cristãos” de Atos 11:26, aqui no Blog Bíblia se Ensina.
Dentre estes, há vários outros versículos que poderíamos mencionar aqui para descrever com mais detalhes as características da “seita dos nazarenos”, ou seja, da verdadeira comunidade de discípulos de Jesus naquela época. Mas, para darmos continuidade ao nosso tema, vamos verificar que essa mesma comunidade de discípulos continuou existindo no decorrer da história e também foi identificada por outros nomes. Aliás, não poderia ser diferente, pois o próprio Mestre afirmou que estaria com eles todos os dias, até o final dos tempos (Mt 28:20); então, naturalmente, eles deveriam continuar existindo…
A seita dos nazarenos, uma profecia para o povo de Deus.
וְ עַמֵּךְ כֻּלָּם צַדִּיקִים לְ עֹולָם יִירְשׁוּ אָרֶץ נֵצֶר מטעו מַטָּעַי מַעֲשֵׂה יָדַי לְ הִתְפָּאֵר׃
ve amekh kulam tsadiqim le ‘ovlam yir’shu ‘arets netzer mot’v mataay ma’aseh yaday le hith’pa’er
E todos do teu povo serão justos, para sempre herdarão a terra, [serão] brotos/ramos plantados, trabalho da minha mão, para minha glória. (Isaías 60:21, tradução livre)
O capítulo 60 de Isaías traz uma profecia acerca da glória eterna da cidade de Jerusalém e do povo de Israel. Ela descreve um tempo em que todos deste povo seriam chamados justos e seriam como brotos plantados; ou seja, iriam se renovar e crescer.
Aqui vemos mais uma vez a palavra netzer, de onde vem “nazareno”, relacionada àqueles que são justos, ou seja, tementes a Deus e realmente praticantes de sua palavra (Sl 37:30,31). Assim, tanto o Nazareno quanto a “seita dos nazarenos” não poderiam jamais se desfazer de qualquer dos mandamentos da Lei de Deus! (cf. Mt 5:17-19, Rm 3:31 etc.).
Mas como vimos, essa palavra não designa somente um adjetivo pátrio de Jesus, tão pouco de seus discípulos. Ela está associada a algumas profecias acerca do povo de Deus e designa aqueles que são os protetores, mantenedores da aliança e dos ensinamentos divinos, especialmente a comunidade de discípulos que Yeshua fundou, embora o contexto religioso ocidental comum mostra um cenário diferente ao mundo.
Com o tempo, pareceu que esta escola original de discípulos do mestre Yeshua/Jesus deixou de existir, ou se transformou em um novo tipo de religião. Isto é, em vez de preservar as características, os ensinamentos e a cultura que Deus ensinou ao seu povo nas Escrituras eles abandonaram e modificaram diversos aspectos de tudo isso e formaram uma nova maneira religiosa de viver.
No entanto, com alguns poucos versículos que lemos até aqui, já foi possível provar que a chamada “seita dos nazarenos” nas bíblias comuns preservou a cultura e identidade bíblica que Deus deu ao povo que escolheu, por causa de Abraão (Dt 7:7-8; Sl 105:8-10).
Então, onde está hoje essa escola de discípulos preservadora e guardadora dos ensinamentos originais divinos dados ao povo da Bíblia? Os milhares de judeus que creram em Jesus/Yeshua, mencionados em Atos 21:20, e que ainda eram zelosos da Lei divina, não desapareceram após a destruição do templo de Jerusalém no ano 70?
Como já dissemos antes, se Jesus afirmou que estaria com eles até o fim dos tempos (Mt 28:20), e de acordo com as profecias bíblicas esta “seita dos nazarenos” clamariam para um retorno a Deus nos tempos finais (Jr 31:6), então eles deveriam continuar existindo ao longo das eras.
E, de fato, essa comunidade judaica de discípulos de Jesus continuou existindo ao longo de toda nossa era, mas com tanta perseguição ao povo judeu eles estavam mais preocupados em sobreviver do que crescer. Então nós começaremos a ver, a partir de agora neste estudo bíblico, que os próprios historiadores cristãos mencionaram a existência dessa mesma comunidade iniciada em Atos 2 ao longo do tempo.
A seita dos nazarenos ao longo da história.
O padre Jerônimo (347-420) fez algumas menções à seita dos nazarenos. Em uma delas, ele os descreve da seguinte forma:

Os Nazarenos, que recebem o Cristo de tal forma que não deixam de lado a observância da lei antiga, interpretam as duas casas como as duas famílias de Simei e Hillel.
St. Jerome Commentary on Isaiah, pág. 164. The Newman Press, Copyright 2015, by Thomas P. Scheck
Como vemos, Jerônimo testemunha que a chamada “seita dos nazarenos”, presente em sua época (séculos IV e V), acreditavam que Jesus é o Messias, mas não abandonaram a maneira de viver determinada pelas Escrituras Sagradas ao povo de Israel. Isso conecta diretamente com o texto de Atos 21:20, onde são mencionados milhares de judeus que acreditaram nele, mas permaneceram zelosos da Lei de Deus (Torá/Pentateuco).
Embora alguns acreditem que tais nazarenos compunham uma “seita judaica” que surgiu no século II de nossa era, eles são perfeitamente identificados com o perfil dos judeus que acreditaram no mestre Yeshua (Jesus), como lemos no referenciado versículo bíblico acima.
Então, para tudo ficar ainda mais claro, vejamos algumas características que aqueles discípulos judeus da Bíblia conservavam, mas que foram abandonadas pela construção religiosa posterior.
Características da seita dos nazarenos na Bíblia e na história.
- Continuidade das festas bíblicas: Os discípulos que compunham a seita dos nazarenos, a comunidade na qual Paulo, o apóstolo, era um dos principais líderes (At 24:5), continuaram participando das festas bíblicas, que são uma ordenança de Deus para seu povo, vide Atos 2:1, 18:21 (na ACF ou BKJ), 20:16; 1Co 5:7-8; cf. Êx 23:14-17.
- Obs.: O próprio Jesus/Yeshua participou das festas bíblicas todos os anos de sua vida, vide Lc 2:41-42; 22:15-16 (cf. Jo 5:1, 7:2,10,14, 10:22-23).
- Reuniões no sábado: Os discípulos também continuaram a se reunir no dia de sábado, o dia que Deus santificara desde a criação do mundo, para orar e estudar as Escrituras. Aliás, o próprio Jesus fez isso durante toda sua vida, vide Lc 4:16, Atos 13:14-15, 16:13, 17:1-2,10-11 etc.
- Descanso no sábado: Os discípulos da “seita dos nazarenos” também continuaram a repousar no dia de sábado, conforme o mandamento bíblico, cf. Lc 23:54-56.
- Alimentação bíblica: Eles também continuaram mantendo as dietas alimentares ordenadas por Deus na Bíblia, pois não podiam promover transgressões aos Seus mandamentos, vide Atos 10:10-14.
- Entre outras características.
Adiante veremos outros detalhes.
Assim, notamos que os nazarenos mencionados por Jerônimo no século IV mantinham características que os discípulos de Jesus conservaram, pois eles não poderiam abandonar ou se desfazer dos costumes que Deus ordenou ao seu povo (cf. At 28:17).
Dessa forma, temos aqui um relato da sobrevivência da comunidade judaica de discípulos de Jesus, a chamada seita dos nazarenos, até o 4º século, pelo menos. Mas veremos outros relatos posteriores adiante.
Então, o grupo primitivo de discípulos judeus do Mestre jamais se desfez dos mandamentos de Deus para o Seu povo, isto é, a Lei de Moisés, bem como aqueles seguidores relatados posteriormente. Então por que parece que eles não existem hoje em dia?
O que acontece é que, com a diáspora judaica depois do cerco de Jerusalém, no ano 70, bem como as guerras e perseguições subsequentes, as comunidades de judeus passaram por diversos perigos de risco à sua existência. Assim, a pregação dos pais da Igreja e suas interpretações teológicas da Bíblia foram ganhando força entre os gentios (por vários motivos), desde o final do século I, mas também passando por algumas perseguições até o século IV.
Dessa forma, com o enfraquecimento das comunidades judaicas e sinagogas onde inclusive se reuniam os discípulos de Yeshua, os teólogos cristãos que surgiram se apropriaram dos escritos bíblicos e construíram para si uma religião com base em seu próprio entendimento, formando também sua própria base doutrinária. Prova disso é o famoso documento chamado Didaquê, que se trata de uma instrução comunitária cristã redigida por volta dos anos 70-90 do século I.
Sob este cenário social e interpretativo teológico, o mundo foi gradativamente acreditando que os discípulos de Jesus/Yeshua, na verdade, criaram uma nova religião e se divorciaram dos costumes da Lei de Moisés (Lei de Deus). Na verdade, essa mentira já acontecia no tempo em que os apóstolos estavam vivos (At 21:20-24), que dirá então depois de sua morte!
Agora, retomando a abordagem de nossa pesquisa, vamos adiante nos outros relatos históricos acerca da chamada “seita dos nazarenos”.
Epifânio de Salamina (320-403) também descreve a seita dos nazarenos.

Epifânio foi bispo cristão em Salamina, uma cidade da ilha de Chipre. Segundo ensina a tradição Católica, foi um grande defensor da virgindade perpétua de Maria. Foi também um homem muito culto e estudioso, superando a muitos de sua época e batalhou muito contra o que na época o cristianismo considerava heresia.
Em sua famosa obra, Panarion, assim ele relata a respeito destes nazarenos:
Mas esses mesmos sectários que estou discutindo aqui desconsideraram o nome de Jesus, e nem se autodenominaram jessianos, mantiveram o nome de judeus, nem se autodenominavam cristãos – mas “nazarenos”, supostamente devido ao nome do lugar “Nazaré”.
The Panarion of Epiphanius of Salamis, Book I, Second Edition, Brill, Leiden Boston 2009. Págs. 170-171.
Mas eles são judeus em todos os sentidos e nada mais.
Eles usam não apenas o Novo Testamento, mas também o Antigo Testamento, como fazem os judeus. Pois eles não repudiam a legislação, os profetas e os livros que são chamados de Escritos pelos judeus e por eles próprios.
Eles não têm pontos de vista diferentes, mas confessam tudo em pleno acordo com a doutrina da Lei e como os judeus, exceto que são supostamente crentes no Cristo.
Pois eles reconhecem tanto a ressurreição dos mortos como que todas as coisas foram criadas por Deus, e declaram que Deus é um e que seu Filho é Jesus, o Cristo.
Eles são perfeitamente versados na língua hebraica, pois toda a Lei, os profetas e os chamados Escritos – quero dizer, os livros poéticos, Reis, Crônicas, Ester e todo o resto – são lidos em hebraico entre eles, como é claro, eles estão entre os judeus.
Eles são diferentes dos Judeus, e diferentes dos Cristãos, apenas nos seguintes aspectos: Eles discordam dos Judeus por causa da sua crença no Cristo; mas eles não estão de acordo com os cristãos porque ainda estão agrilhoados pela Lei – a circuncisão, o sábado e o resto.
O relato de Epifânio, embora pareça de ódio contra os judeus nazarenos porque eles acreditavam no Messias, mas não se identificavam como cristãos, é muito interessante e bem completo, relacionando-se com vários trechos do Livro dos Atos e fatos históricos atuais. Vejamos algumas das características que Epifânio destaca neste trecho de sua obra.
Os nazarenos, não cristãos que acreditavam no Cristo.
No início deste trecho, Epifânio diz que estes nazarenos “desconsideram o nome de Jesus”, mas no final ele afirma que eles acreditavam no Cristo. Isso parece uma contradição, mas na verdade Epifânio diz que eles “desconsideram o nome de Jesus” porque não acreditavam nele da maneira que os cristãos acreditavam. Então Epifânio na verdade está difamando os nazarenos.
Não obstante a isso, a existência destes judeus é real e seu relato histórico contribui muito para conhecermos as características deles. Epifânio então diz que eles…
Mantiveram o nome de judeus…
Os Escritos Nazarenos (“Novo Testamento”) mostram que os discípulos de Jesus também não se desfizeram da vida bíblica que os judeus receberam de Deus nas Escrituras:
Ouvindo isso, eles deram glória a Deus e lhe disseram: — Você percebe, irmão, que há milhares de judeus que creram, e todos são zelosos da Lei. (Atos 21:20)
nem se autodenominavam cristãos…
Em Antioquia da Síria os discípulos foram pela primeira vez chamados de “cristãos” (conforme traduções bíblicas), vide Atos 11:26. Isto é um adjetivo proveniente da palavra grega christianos, e significa, basicamente, “os do Ungido”.
Mas, segundo comentário da Bíblia King James Fiel com Estudo Holman, este nome foi dado de forma depreciativa aos discípulos. Ou seja, eles não se chamavam assim, porém para zombar deles assim os descreveram. O comentário da BKJ diz o seguinte:
O termo cristãos veio, provavelmente, de romanos que rotularam os seguidores de Jesus em Antioquia de “pequenos cristos”. Embora seja provável que pretendia ser uma ofensa …
Simão Kêfa (Pedro) também cita este adjetivo assimilado a certo sofrimento que os discípulos estavam atravessando (1Pe 4:16).
Ou seja, os discípulos, a princípio, não se chamavam de “cristãos” (christianos), porque foi um rótulo pejorativo que eles receberam de outros. Porém, mais tarde, os teólogos da igreja se apropriaram deste nome para se descreverem em sua nova religião.
No entanto, a “seita dos nazarenos” (a comunidade de discípulos de Jesus) não intentou se desfazer de seus costumes bíblicos tradicionais para criar nova maneira religiosa de viver…
… Quando estavam reunidos, Paulo disse: — Meus irmãos, apesar de nada ter feito contra o povo ou contra os costumes paternos, vim preso desde Jerusalém, entregue nas mãos dos romanos. (Atos 28:17)
Ora, os judeus nazarenos, que existem até hoje e creem que Yeshua/Jesus é o Messias, ainda não se intitulam como “cristãos” por estes motivos.
eles não repudiam a legislação … confessam tudo em pleno acordo com a doutrina da Lei…
Paulo confessa abertamente essa característica da comunidade a qual ele fazia parte, dizendo:
Porém confesso ao senhor que, segundo o Caminho, a que chamam seita, assim eu sirvo ao Deus de nossos pais, acreditando em todas as coisas que concordam com a lei e os escritos dos profetas… (Atos 24:14)
Ou seja, Paulo confessa que a comunidade através da qual ele servia a Deus, a chamada “seita dos nazarenos”, permanecia em concordância total com a Lei de Deus (a Lei de Moisés, Torá ou Pentateuco), e os escritos dos profetas. Até porque o Mestre dessa comunidade valorizou muito a Lei divina, vide Mt 5:17-19.
Mais uma vez a comunidade dos nazarenos dos dias de Epifânio continua em total concordância com a comunidade primitiva dos discípulos de Jesus, constatando-se pelo próprio relato da Bíblia, mostrando que a comunidade judaica primitiva não se extinguiu após a queda de Jerusalém no ano 70.
e declaram que Deus é um …
A respeito disso temos muito que falar, mas seremos suscintos aqui para não alongar demais o conteúdo.
A comunidade dos nazarenos do tempo de Epifânio estava diretamente conectada com o próprio Jesus e seus discípulos, além da nação judaica, nesta crença. Então vamos destacar alguns versículos dos Escritos Nazarenos que mostram isso.
O primeiro é que o próprio Mestre da “seita dos nazarenos” confirma que, segundo a Torá (Instrução divina) Deus é um só. E ele não só confirma isso, mas diz que este é o principal dos mandamentos. Basta ver Marcos 12:29 na Bíblia Tradução Brasileira, por exemplo.
Respondeu Jesus: O primeiro é: Ouve, ó Israel, o Senhor é nosso Deus, o Senhor é um só;
Infelizmente este versículo foi mal traduzido na grande maioria das bíblias conhecidas ao dizer “o Senhor nosso Deus é o único Senhor”.
Outro versículo em que Jesus afirma que Deus é um só, o Pai, é João 17:3.
Os discípulos dele, naturalmente, reproduziam este mesmo ensino, basta ver 1 Coríntios 8:6, 1 Timóteo 2:5, Tiago 2:19 etc.
Caso queira saber mais detalhes a respeito deste tópico, visite nosso estudo “Shemá Israel e a Doutrina da Trindade“.
eles não estão de acordo com os cristãos porque ainda estão agrilhoados pela Lei – a circuncisão, o sábado e o resto.
Já mostramos que os discípulos de Jesus não abandonaram os costumes e mandamentos da Lei divina, portanto não precisamos nos alongar mais neste sentido (vide At 25:8, 28:17, Rm 3:31, 7:22 etc.).
Porém, este comentário de Epifânio é interessante porque ele mostra que sua religião já repudiava certos costumes do Pentateuco, diferente da comunidade dos nazarenos, que mesmo sendo crentes em Jesus/Yeshua continuavam zelosos da Lei (At 21:20, At 24:14).
Mas este desprezo aos costumes judaicos ensinados por Deus a Moisés e aos patriarcas nasceram um tempo antes dos séculos IV e V, época de Epifânio.
No século III, em sua obra História Eclesiástica, o historiador cristão Eusébio de Cesareia comenta:
… Eles, portanto, não consideravam a circuncisão, nem observavam o sábado, como também nós; nem nos abstemos de certos alimentos, nem consideramos outras imposições que Moisés subsequentemente entregou para serem observadas em tipos e símbolos, porque tais coisas não dizem respeito aos cristãos.
História Eclesiástica, Livro 1, cap. IV (p. 26). CPAD. Edição do Kindle.
Mas Eusébio, por sua vez, está apenas reproduzindo uma filosofia que nasceu ainda antes dele, com um dos principais pais da Igreja, Inácio de Antioquia (35-107).
Em um trecho de sua carta aos cidadãos magnésios, entre outras coisas, Inácio diz o seguinte:
É absurdo professar Cristo Jesus e judaizar-se . Pois o cristianismo não abraçou o judaísmo, mas o judaísmo o cristianismo
Ou seja, os teólogos que surgiram após os tempos bíblicos reproduziam um tipo de ensino que desprezava certos costumes da Lei divina, conforme interpretavam as Escrituras, o que se faz presente até hoje em dia nos meios religiosos mais comuns, embora a maioria das pessoas nem perceba. Mas isso, como vimos, não foi um hábito que surgiu dentro da comunidade de discípulos de Jesus.
a circuncisão, o sábado e o resto…
Retomando o relato de Epifânio, ele ainda menciona algo que não podemos deixar de destacar, como já foi dito. Aqueles judeus nazarenos mantinham a prática de mandamentos como a circuncisão, o sábado e o resto (nas palavras de Epifânio). Isso não poderia ser diferente, pois já que eles eram judeus, deveriam praticar os mandamentos de Deus a eles, e não se desfazer dessas ordenanças sob novas interpretações teológicas.
E, como vimos, os discípulos de Jesus também mantiveram essas práticas. Com os que tinham etnia judaica, por exemplo, Paulo praticava a circuncisão (At 16:1-3), e pregava a respeito da circuncisão (Gl 5:11). Só que ele aplicava a circuncisão em seu contexto correto e na situação em que deveria ser aplicada, daí ele ser contrário a realizar a circuncisão de imediato em certas pessoas (At 15:1-2).
Os discípulos de Jesus, em particular, também mantiveram a prática do descanso no sábado (Lc 23:54-56), pois isso era um mandamento de Deus para eles, visto que o Eterno santificou esse dia (Êx 31:16-17). Além disso, eles mantiveram suas reuniões nos dias de sábado, como forma de obediência ao mandamento divino também (Lv 23:3), prática que o próprio mantinha como costume (Lc 4:16), bem como seus apóstolos (At 17:1,2), e seguindo a liturgia que até hoje pratica o povo de Israel (At 13:14,15).
Ou seja, a eles pertence a adoção, assim como a glória, as alianças, a promulgação da Lei, o culto e as promessas (Rm 9:4 NAA).
versados na língua hebraica … eles estão entre os judeus …
Agora vamos para o último destaque deste trecho de Epifânio a respeito dos nazarenos de seu tempo.
Ora os judeus, até os dias de hoje, leem as Escrituras em hebraico em suas reuniões nas sinagogas. Portanto, cada discípulo de Jesus, sendo frequente da sinagoga, conhecia o idioma em que Deus criou o mundo, vide João 20:16, Atos 22:1-3, 26:13,14 etc. Dessa forma, até os dias de hoje as comunidades de judeus netzarim, que são os remanescentes daquela seita dos nazarenos mencionada em Atos 24:5, estudam a Bíblia em hebraico também.
E por fim, Epifânio menciona que aqueles judeus nazarenos de seu tempo estavam entre os judeus. Ou seja, eles se mantinham juntos no serviço divino e não se apartaram das comunidades judaicas, pois eles também eram povo de Israel (cf. Rm 11:1-5). Assim, os não judeus foram aproximados dessas comunidades do povo de Israel através do Messias, a fim de todos prestarem um mesmo serviço divino (cf. Rm 11:17-18, Ef 2:11-13 etc.).
Conteúdo sendo atualizado …
Para onde foi a seita dos nazarenos após a queda de Jerusalém?
Epifânio, o bispo de Salamina, vai mais longe em seu relato e menciona onde se localizava a seita dos nazarenos em seus dias. Vamos conferir.
Esta seita dos nazarenos pode ser encontrada em Bereia, perto da Celessíria, na Decápolis perto de Pela, e em Basânite, no lugar chamado Cocabe — Khokhabe em hebraico.
The Panarion of Epiphanius of Salamis, Book I, Second Edition, Brill, Leiden Boston 2009. Pág. 172, 7.7.
Pois esse foi o seu local de origem, visto que todos os discípulos se estabeleceram em Pela depois de terem saído de Jerusalém — Cristo tendo-lhes dito para abandonarem Jerusalém e se retirarem dela por causa do cerco que estava prestes a sofrer.
E eles se estabeleceram na Pereia por essa razão e, como eu disse, viveram suas vidas lá. Foi daí que a seita nazarena teve sua origem.
Como podemos ler claramente, o historiador católico diz que a seita dos nazarenos estava espalhada entre alguns lugares próximos, na Decápolis mencionada na Bíblia (Mt 4:25), onde Jesus cura um homem gadareno (Mt 4:25; Mc 5:18-20, 7:31). Epifânio dá a exata localização para onde os discípulos foram antes do cerco de Jerusalém, que aconteceu entre os anos 66-70.
Epifânio interpreta que a seita dos nazarenos de seu tempo teve sua origem neste exato local, onde estavam os discípulos de Jesus. A fim de defender que sua religião é o caminho oficial que Jesus estabeleceu, ele dá a entender que os nazarenos eram uma seita que se desviou da religião do Messias, que seria a mesma de Epifânio. No entanto, dadas as semelhanças que percebemos aqui analisando os versículos de Atos dos Apóstolos, só podemos concluir que esta seita judaica dos nazarenos do tempo de Epifânio, na verdade, eram os remanescentes da verdadeira comunidade de discípulos do Senhor, e que outros movimentos religiosos se apartaram deles, criando suas próprias tradições e doutrinas; aliás, isso já estava acontecendo nos tempos bíblicos, vide 1 João 2:19. Ou seja, houve uma inversão da história real.
A primeira localidade citada por Epifânio onde se localizava a seita dos nazarenos era perto da Cele-Síria, região que abrange uma parte do atual Líbano.


Embora a seita dos nazarenos estivesse aglomerada por essa região, o historiador cristão de Salamina afirma que todos os discípulos se estabeleceram em Pela e viveram suas vidas por lá, onde os nazarenos de seu tempo também estavam. Ora, esta é uma das dez cidades que formavam a região de Decápolis.
Já Basânite, também conhecida como Bashan ou Basã, de acordo com a Enciclopédia Theodora, é uma região situada a leste do Jordão, em direção à sua nascente. Essa Enciclopédia ainda afirma que o nome dessa região aparece pela primeira vez na história bíblica em conexão com as peregrinações dos israelitas. É mencionada nas Escrituras em Números 21:33.

Sendo assim, temos referências dos locais exatos para onde os discípulos de Jesus foram morar, desde pelo menos os anos 66-67. Eles permaneceram por aquelas regiões até perto dos anos 400, pelo menos.
O início da hostilidade aos judeus na Era Comum.
Ao longo do tempo, os judeus sofreram muita hostilização nas nações para onde foram dispersos. Com isso, eles foram migrando gradativamente para diversos lugares da Europa, até chegarem nas Américas. E como o próprio Epifânio mencionou em seu relato, o grupo de judeus que conservou as características bíblicas originais dos discípulos nazarenos viviam junto dos outros judeus. Portanto, podemos traçar uma linha histórica das perseguições que eles sofreram e para onde migraram, até chegar nos dias atuais.
Já no início da história, não muito tempo depois da destruição de Jerusalém e de seu Santuário, os judeus eram alvo de hostilização, especialmente no âmbito religioso.
Alguns dos pais da igreja foram praticamente os primeiros a levantar hostilidade contra os judeus.
Inácio de Antioquia (35-107), por exemplo, em sua carta aos crentes da antiga cidade grega Magnésia, chama as doutrinas dos judeus (a Torá?) de heterodoxas, velhos mitos sem utilidade. Ele alegava que se alguém quisesse viver como um judeu, confessaria não ter recebido a graça de Deus ou do Cristo, não obstante o próprio “Cristo” ser um judeu e ter vivido com um, além de seus pais, seus discípulos e entre tantos outros, vide Lc 2:21-24,39-42, João 4:6-9 etc. E como lemos mais acima, seus apóstolos também continuaram se identificando como judeus.
Mas o pai da Igreja continua suas alegações; ele diz que a vida “judaica” (bíblica) era nada mais nada menos que “a velha ordem das coisas”, e que o sábado (mesmo tendo sido santificado por Deus desde a fundação do mundo) não deveria mais ser considerado. Além disso, tendo usado a palavra “cristianismo” pela primeira vez na história, alega que quem não vivesse de acordo com essa religião, que agora estava mudando os costumes bíblicos, não era de Deus.
Por fim, Inácio chama a maneira de viver dos judeus de “mau fermento, envelhecido e azedado”, e que era absurdo falar de Jesus Cristo e viver como um judeu (mas Jesus era o que?). Para constatar todas essas informações, basta ver os curtos capítulos 8 a 10 da carta de Inácio aos magnésios, disponível em português em vários sites pela internet.
- Veja também, aqui no Blog Bíblia se Ensina, o estudo “Cristianismo: O que é, quem criou e como surgiu“.
Inácio escreveu essa carta entre os anos 98-103 de nossa era. Suas hostilidades aos judeus, o que naturalmente incluía o grupo dos netzarim/nazarenos (porque estavam juntos dos outros judeus), se repetiram ao longo da história.
Nas 3 últimas décadas do século seguinte, o século 3, Eusébio de Cesareia continua a usar a religião de Inácio como veículo de desconstrução da identidade que Deus deu aos israelitas na Bíblia. No início de sua obra mais famosa, a História Eclesiástica, ele afirma que a circuncisão, o sábado, as dietas alimentares, dentre outros costumes ordenados por Deus através de Moisés na Lei, não diziam respeito aos cristãos, que ele também alega ser a nova religião de Deus que estava se espalhando pelo mundo. Veja História Eclesiástica, Livro I, cap. IV (p. 26).
O presente texto ficaria longo demais se fôssemos citar detalhes de cada ocasião no decorrer da história que incitaram a hostilidade ao povo de Israel, portanto não poderemos citar todos as bibliografias ou eventos históricos. Mas daremos continuidade com outros relatos um tanto sucintos.
As subsequentes revoltas judaicas e a continuação das hostilidades religiosas.
Depois do cerco de Jerusalém, que durou dos anos 66 até 73, pelo menos, uma segunda guerra eclodiu por volta dos anos 115 e 117, nas regiões de Cirene (Cirenaica), Chipre, Mesopotâmia e Egito. Porém, se verificarmos com atenção, essas regiões não eram perto de onde a chamada “seita dos nazarenos” e os demais judeus estavam.

Também aconteceu uma terceira guerra, mais famosa, conhecida como a revolta de Bar Kochba, entre os anos 132-135. A revolta foi instigada depois que o imperador romano da época lançou um decreto proibindo a circuncisão, o que é um dos elementos mais importantes da identidade bíblica-israelita (ou judaica), vide Gn 17:9-11. Essa revolta se concentrou mais na Judeia e visava reconquistar Jerusalém.
(Obs.: A proibição da prática de costumes bíblicos dados por Deus ao povo de Israel é um dos sinais da chamada “marca da besta”, que abordamos em outro estudo aqui no Blog Bíblia se Ensina).
Agora, a revolta judaica contra Gaio, ocorrida entre os anos 351-352, já afeta a região onde os remanescentes da comunidade oficial de discípulos do Messias Yeshua estava, a Síria. No início do século 4, os governantes romanos começaram a favorecer muito o cristianismo sobre outras religiões, incluindo o povo de Israel, isto é, os judeus. Tanto estes, como os outros, começaram a ser perseguidos porque não eram adeptos daquela que estava se tornando a religião oficial do Império.
Essa revolta se concentrou na cidade chamada Diocesareia (também conhecida como Séforis). Esta se localizava nas regiões da Galileia, sendo seu centro administrativo na época. Nos seus arredores também se localizava a cidade de Nazaré. Na verdade, ambas cidades existem até hoje, Séforis e Nazaré.
No ano 351, o general romano Ursicinus acabou com a revolta, executando muitos judeus. A Enciclopédia Judaica informa que à frente dela estava um homem que é chamado nas fontes gregas de “Patrício”, e em judeu de “Natrona”. Ele também é mencionado em um Midrash (uma literatura judaica) e foi morto nessa ocasião.
Por essa altura já havia acontecido o concílio de Niceia (325), que foi um marco histórico para tornar o cristianismo a religião oficial do império romano. E, logo depois destes eventos, é publicado o Édito de Tessalônica, em fevereiro de 381, oficializando definitivamente o cristianismo como a religião única do Império, em detrimento de todas as outras. Isso levantou, portanto, hostilidade não só contra os judeus, mas também contra outras minorias religiosas.
Teodósio, o imperador que publicou o referido édito, era um cristão ortodoxo niceno muito devoto, oriundo da Hispânia. Ele foi nomeado imperador do Ocidente pelo imperador Graciano, também ele um cristão ortodoxo niceno.
Teodósio e Graciano, comungando do mesmo Credo, sentiram-se à vontade para favorecer a ortodoxia cristã do Concílio de Nicéia, e, consequentemente, no dia 27 de fevereiro de 380, promulgaram o decreto imperial “Cunctos populos“, chamado de “Édito de Tessalônica”, pelo fato de Teodósio se encontrar nessa cidade quando o decreto foi editado. Ele dizia assim:
“É nossa vontade que todos os diversos povos que são súditos de nossa Clemência e Moderação devem continuar a professar aquela religião que foi transmitida aos Romanos pelo divino Apóstolo Pedro, como foi preservada pela tradição fiel, e que agora é professada pelo Pontífice Dâmaso e por Pedro, Bispo de Alexandria, um homem de santidade apostólica.
Publicado em Tessalônica no terceiro dia das calendas de março, durante o quinto consulado de Graciano Augusto e o primeiro de Teodósio Augusto.
De acordo com os ensinamentos apostólicos e a doutrina do Evangelho, que nós creiamos em uma só divindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo, em igual majestade e em uma Santíssima Trindade.
Nós autorizamos que os que obedecerem a essa lei assumam o título de Cristãos Católicos.
Porém, para os outros, uma vez que em nossa opinião, são loucos tolos, nós decretamos que recebam o nome ignominioso de heréticos, os quais não deverão ter a presunção de dar aos seus conventículos o nome de igrejas.
Eles irão sofrer em primeiro lugar o castigo da condenação divina e, em segundo lugar, a punição que a nossa autoridade, de acordo com a vontade do Céu, decidir infligir.
Fonte: https://historiasderoma.com/2018/02/27/o-edito-de-tessalonica/
Diante de tal determinação, restava aos judeus, bem como às outras minorias religiosas, fugir dos locais onde eram perseguidos, pois eram obrigados a abandonar sua identidade religiosa (identidade bíblica no caso do povo israelita).
Esse ódio contra os judeus se espalhou pela Europa, para onde vários deles haviam fugido por ocasião das perseguições. Na Idade Média (a partir do século 5), eles também começaram a ser acusados dos responsáveis pela morte de Jesus (não obstante seus 12 apóstolos, e mais centenas de outros discípulos, também serem judeus, vide Atos 21:18-24).
Apesar de terem conseguido se desenvolver um pouco em certas regiões da Europa, foi a partir dos anos 1096-1099 que a situação dos judeus começou a piorar devido às cruzadas. Tratava-se de um movimento de tentativa de retomada de Jerusalém, que estava sob domínio islâmico. Estas, muitas vezes lideradas pela Igreja Cristã, prejudicou muito os judeus nas regiões da Alemanha, dentre outras.
A “seita dos nazarenos” na Europa medieval.
Pouco depois do início dos eventos descritos acima, um homem italiano chamado Bonacursus se converteu ao catolicismo e divulgou um relatório confessional ao povo de Milão (Itália), expondo a natureza da heresia cátara. Isso foi em algum momento entre 1176 e 1190, ou um pouco mais tarde. Esta foi considerada pela Igreja uma heresia medieval que se desenvolveu, principalmente, no sul da França e partes da Itália, a partir do século 12.
As descrições que Bonacursus dá de um certo grupo na época é intrigante, devido suas características se assemelharem muito a do grupo de discípulos da “seita dos nazarenos”, isto é, os judeus netzarim ou notzirim (hebraico). O grupo ficou conhecido como os “Passagini” . Ele diz o seguinte:
“Não são poucos, mas muitos sabem quais são os erros daqueles que são chamados de Passagini, e quão nefasta é sua crença e doutrina. Mas porque há alguns que não os conhecem, não me incomoda escrever o que penso deles, em parte por precaução e para a sua salvação, e em parte por sua vergonha e confusão, a fim de que sua tolice se torne mais amplamente conhecida, e que eles possam ser os mais condenados e desprezados de todos. Assim como devemos conhecer o bem para fazê-lo, assim também devemos conhecer o mal para evitá-lo… Que aqueles que ainda não estão familiarizados com eles, por favor, observem o quão perversa é sua crença e doutrina. Primeiro, eles ensinam que devemos obedecer à lei de Moisés de acordo com a letra – o sábado, e a circuncisão, e os preceitos legais ainda em vigor… Além disso, para aumentar seu erro, eles condenam e rejeitam todos os Padres da igreja, e toda a igreja romana. Mas, porque procuram basear seus erros no testemunho do Novo Testamento e dos profetas, vamos matá-los com sua própria espada com o auxílio da graça de Cristo, como Davi matou Golias”
(Andrews e Conradi, pp 547-548; Latim de Migne, PL 204:784-794).
Com tal testemunho, nós verificamos que os tais chamados “Passagini” tinham crença total nas Escrituras de Moisés e nos profetas, bem como na mensagem de Yeshua nos Escritos Nazarenos, erroneamente nomeados “Novo Testamento” pelos pais cristãos.
Ora, verificando uma certa afirmação de Paulo no Livro Bíblico dos Atos, notamos muita similaridade com os chamados Passagini da era medieval:
Porém confesso ao senhor que, segundo o Caminho, a que chamam seita, assim eu sirvo ao Deus de nossos pais, acreditando em todas as coisas que concordam com a lei e os escritos dos profetas,
Atos 24:14 Nova Almeida Atualizada
Como conferimos, a descrição da chamada “seita dos nazarenos” na tradução bíblica acima é que eles continuavam concordando com a Lei de Moisés e os profetas. Ou seja, não houve tentativa por parte dos discípulos de Yeshua/Jesus de desmerecer a Lei de Deus, afirmando que determinados mandamentos dela foram abolidos. A descrição da comunidade de Paulo, portanto, se encaixa perfeitamente com os relatos de Jerônimo e Epifânio acerca dos nazarenos de sua época, bem como dos “Passagini”, do século 12.
Logo, como vemos, sempre houve um remanescente judaico da comunidade de discípulos do mestre Yeshua existindo ao longo da história.
Outra fonte acerca deste assunto foi escrita em Cremona, Lombardia, chamada Summa contra haereticos. Sua data se situa por volta dos anos 1200 e é geralmente atribuída a Praepositinus, um teólogo e liturgista de Cremona, que estudou e ensinou teologia em Paris.
Praepositinus escreveu quatorze capítulos sobre os Passagini. Entre eles, aprendemos que os tais acreditavam que toda a Lei de Deus ainda era aplicável, exceto sacrifícios (cap. 6). No capítulo oito, aprendemos que eles literalmente praticavam o sábado.
Também aprendemos que esse grupo observou o Tanakh (erroneamente nomeado “Antigo Testamento” pelos pais da Igreja) à risca, incluindo o sábado, as dietas alimentares de Levítico 11 (dentre outros textos) e a circuncisão. Sua base para essa crença foi Mateus 5:17-20, Romanos 3:31 e Romanos 7:12-14. Além disso, eles acreditavam que a Lei e os relatos acerca de Yeshua (“evangelhos”) deveriam ser observados simultaneamente; eles acreditavam tanto no decálogo (Dez Palavras ou Dez Mandamentos) quanto na fé de que Yeshua é o Messias.
No capítulo 9 desta obra, Praepositinus descreveu como os “Passagini” mantiveram a Páscoa literalmente no décimo quarto dia do mês de Nissan (conforme o próprio Jesus fez toda sua vida, vide Lc 2:41-42 e 22:7-16). No capítulo onze, aprendemos que os Passagini declararam nulas as leis da igreja católica e as rotularam como instituições humanas não ordenadas serem praticadas por Deus, com base em Isaías 29:13. Eles viam as regras católicas como nulas com base no fato de que ninguém poderia editar a Lei de Deus ou adicioná-la, e que ninguém deveria pregar outra boa nova (“evangelho”), usando os versículos de Mateus 5:17, Gl 1:4-7 e Rv (Ap) 22:18.
Há um terceiro documento datado de aproximadamente o ano 1230, o qual alguns que o estudaram o consideraram pertencente ao trabalho de Praepositinus. Este foi escrito em Bérgamo, uma outra cidade da Lombardia. Um certo trecho dele diz:
“Depois do que foi dito dos Cathari, ainda resta a seita dos Passagini. Eles ensinam Cristo a ser a primeira e pura criatura; que as festas do Antigo Testamento devem ser observadas – circuncisão, distinção de alimentos, e em quase todos os outros assuntos, exceto os sacrifícios, o Antigo Testamento deve ser observado tão literalmente quanto o Novo – a circuncisão deve ser mantida de acordo com a letra…”
(Andrews e Condradi, pp 548-549)
Algumas informações acima são bem interessantes. É claro que líderes e teólogos cristãos vão discordar de quase todas elas, pra não dizer todas. Mas podemos usar uma Bíblia cristã comum mesmo para provar que tais interpretações são verdadeiras. Vamos usar a respeitada Almeida Corrigida Fiel para tanto.
Primeiro, os “Passagini” ensinavam que o Messias era a primeira criatura divina, diferente da teologia cristã, que alega que ele é o próprio Deus. No entanto, o próprio Messias concorda com os Passagini no seguinte versículo bíblico:
… Isto diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus:
Apocalipse 3:14
O referido grupo também alegava que as festas bíblicas, ordenadas por Deus ao Seu povo, deveriam continuar sendo praticadas. O Livro dos Atos tem várias menções disso, bem como alguns trechos das cartas de Saul (Paulo). Eu não vou ficar copiando todos os versículos aqui para não alongar demais, porém darei as referências. O leitor pode conferir na tradução bíblica sugerida, a ACF, ou na Bíblia King James Fiel, que não trazem algumas faltas de certas bíblias modernas.
Em Atos 2:1 os discípulos se encontravam reunidos em Jerusalém não só devido a ordem que o Messias havia lhes dado (Lc 24:49), mas aquela também era a época da Festa das Semanas. Era o 50º dia dessa festa. A palavra “pentecostes“, que aparece nas bíblias traduzidas do texto grego, significa justamente “quinquagésimo dia” (G4005) e se refere à contagem de dias que Deus ordena ao seu povo fazer depois do primeiro dia da Páscoa, vide Lv 23:16. O povo judeu faz essa contagem até os dias de hoje, chama-se “contagem de ômer“. É por isso que o texto da tradução bíblica diz “e cumprindo-se o dia de Pentecostes”, ou seja, a contagem de ômer chegou ao dia 50, o seu último, quando se comemora a ocasião em que Deus entregou a Torá (Lei/Instrução) ao povo israelita no monte Sinai.
Anos depois, em Atos 18:21 e 20:16 a Bíblia relata o desejo de Paulo de estar em Jerusalém no dia dessa festa. Ou seja, os discípulos não se apartaram dos mandamentos do Eterno e da cultura que Ele entregou ao Seu povo! Ao contrário de várias denominações religiosas antigas e atuais, que alegam estarem servindo a Deus, mas desprezam tais eventos. Naturalmente, estas só estão seguindo o ensino que líderes religiosos plantaram há muito tempo atrás. Várias de forma inocente, porque foram, de fato, enganadas, e pensam estar seguindo a verdade, outras porém são pretensiosas mesmo, e se justificam por meio de interpretações bíblicas teológicas distorcidas e corrompidas.
- Obs.: É claro que essas festas foram ordenadas ao povo de Israel, tem a ver com sua identidade, história e os feitos de Deus por este povo; aqueles, portanto, que quiserem adentrar neste contexto bíblico, precisam fazê-lo sob orientação de uma comunidade deste povo.
Em 1 Coríntios 5:7-8 Saul (Paulo) instiga seus leitores a comemorarem a festa da Páscoa. Esta mesma festa é mencionada de novo no capítulo 11, especialmente nos vs. 23-25, lidos mensalmente em praticamente todas as igrejas cristãs. Mas infelizmente não se percebe que ali tratava-se da festa da Páscoa bíblica/do Êxodo, a qual o Messias participou com seus discípulos na noite em que foi traído, e disse que tal festa se cumprirá/realizará novamente no reino de Deus, e ele comerá dela com eles, vide Lc 22:15-16.
Ora, se o Messias Yeshua/Jesus afirmou que comerá novamente o mesmo evento bíblico festivo com seus discípulos no reino vindouro, deveriam os crentes no Deus de Israel terem parado com tal evento? Se o Messias é a completude destas festas bíblicas, não deveríamos celebrá-las com maior alegria, então?
Enfim, não vamos alongar mais essa questão das festas para não sair do foco de nossa pesquisa principal, porque esses poucos relatos já são suficientes.
Os Passagini ainda alegavam que a circuncisão deveria continuar sendo observada.
Quanto a isso, não precisamos discorrer muito, pois o texto de Gn 17:7-11 é claro ao afirmar que esta é uma aliança eterna entre Deus e os descendentes de Abraão. Por isso, aqueles crentes que não são descendentes dele não são obrigados a se circuncidar.
O que foi determinado a respeito deles pelos líderes primitivos da comunidade de discípulos do Messias Yeshua é que deveriam se submeter a um padrão mínimo de obediência à Lei Divina. Depois disso, estando inseridos nas comunidades judaicas e sob orientação dos professores e mestres israelitas, poderiam progredir voluntariamente na obediência aos demais mandamentos da Torá. Basta entender o contexto de Atos 15:19-21 para perceber tudo isso.
Portanto, não vemos necessidade alguma de ficar criando justificativas e interpretações teológicas, dizendo que a Lei de Deus foi abolida, seja parcial ou integralmente, só porque não alcançamos a compreensão correta de como deveríamos pôr em prática certos mandamentos, costumes e tradições. Para os gentios, nem todos os mandamentos da Torá são obrigatórios. Veja nosso estudo acerca dos mandamentos universais de Deus para a humanidade para mais detalhes.
Prosseguindo com nossa pesquisa, entre os anos 1235 e 1238, Salvo Burci, de Piacenza, compôs uma longa obra contra os hereges. Entre os grupos que ele discutiu como uma seita menor estava os Circuncisos, que alegavam que tanto a “Lei Antiga” quanto a “Nova Lei” deveriam ser literalmente observadas. O grupo parece se assimilar aos Passagini, de décadas anteriores; por isso, possivelmente os “Circuncisores” e os Passagini eram um mesmo grupo (Wakefield e Evans, p. 276).
Foi encontrado um manuscrito comumente datado entre 1225 e 1250 que revisou brevemente os nomes e crenças de grupos heréticos, bem como tentativas de refutá-los. Embora incompleto, seu conteúdo ainda é significativo para este estudo. No capítulo 3, seções 20-22, os Passagini e Circumcisi foram mencionados juntos. A obra os descreveu como literalmente observando o “Antigo Testamento”, o sábado e a circuncisão (Wakefield e Evans, pp 296-300).
Se os Passagini e os Circumcisi não fossem o mesmo grupo, então eles eram definitivamente considerados dois ramos da mesma árvore, por assim dizer.
Vale ressaltar que os nomes “Passagini” e “Circumcisi” foram alcunhados a estes grupos. Ao que tudo indica, portanto, devido suas características, eles poderiam ser ramificações ou remanescentes dos judeus nazarenos, isto é, a “seita dos nazarenos”, a verdadeira comunidade de discípulos do mestre Yeshua, de Atos 24:5.
Mas o que aconteceu com os Passagini e os Circumsici?
Na época dos anos 1200, a Igreja Romana aumentou seus ataques contra grupos que não se conformavam com seu sistema de crenças, interpretações e costumes religiosos. Eles recrutaram governantes seculares para cometer atos de violência, incluindo roubo e assassinato contra esses grupos. Isso levou à Cruzada Albigense, que começou em 1209. Dezenas de milhares de pessoas morreram na França porque tinham um sistema de crenças diferente do da Igreja Romana.
Em 1236, o Papa Gregório IX emitiu uma carta contra os Patarenos, ela excomungava e anatematizava os “cátaros, patarenos, os pobres de Lyon (valdenses), passagani, Josefinos, arnolistas, speronistas e todos os outros nomes pelos quais os hereges podem passar…”. O conteúdo deste documento ampliou a busca por “hereges” a qualquer pessoa que diferisse em seu estilo de vida daquele que foi aprovado pela Igreja Romana.
Embora a civilização, sob ordem papal e ameaça de exclusão da comunhão da Igreja, denunciasse aqueles que pertenciam aos grupos chamados hereges, houveram alguns que se arriscaram a protegê-los, como alguns governantes de Lombardia, que fizeram isso até o início do século 14 (por volta de 1325).
No decurso deste tempo, este grupo perseguido em questão parecia ter desaparecido da história. Naturalmente, com o aumento dos decretos papais condenando-os, e a ação de vários governantes contra eles, o que lhes restava era se ocultarem mesmo. Muitos deles morreram por sua tradição, outros abandonaram-na, e mais outros fugiram para regiões distantes, a fim de continuar ali a praticar sua fé.
- Fonte e outras referências: sabbathsentinel.org / The Passagini: Sabbath Keepers of The Middle Ages (Part 2 Of 2) (Os Passagini: Guardiões do Sábado na Idade Média – Parte 2 de 2).
No século 13, a exclusão dos judeus tornou-se um dogma eclesiástico.
Muitos judeus, fugindo das perseguições, especialmente na Alemanha e França, ocuparam a Espanha e Portugal, na tentativa de construir uma vida normal.

Entre altos e baixos, às vezes sendo tolerados, muitas vezes não, eles, bem como outras etnias, por volta do ano 1478, foram alvos da chamada “Santa Inquisição“, da Igreja mãe de todas as outras, nestes dois países também. Até mesmo no Brasil o tribunal da Igreja perseguiu os judeus, mas essa é uma parte da história pouco explorada. É possível conferir mais informações nas diversas obras da historiadora Anita Novinsky, que explora o assunto com riqueza de detalhes até os tempos modernos.
Por fim, nosso espaço aqui ficaria longo demais se continuarmos a dar tantos detalhes, e nós nem mencionamos o nazismo, iniciado por volta de 1920, que deu fim à vida de cerca de 6 milhões de judeus.
Essas perseguições, que juntas completam o tempo da grande tribulação mencionada na Bíblia (Mc 13:14-20), só tiveram seu fim por volta de 1948, quando os judeus voltaram a repatriar seu país, inclusive com papel fundamental de um brasileiro, Osvaldo Aranha, que presidiu a reunião da ONU que decretou a criação do Estado de Israel. Daí por diante os descendentes de Abraão, Isaque e Jacó começaram a desfrutar de maior liberdade religiosa e civil.
Assim, enquanto certas religiões se expandiam pelo mundo por meio da imposição e violência, especialmente a da Igreja de Roma, colonizando várias terras (inclusive o Brasil), a “seita dos nazarenos”, isto é, a comunidade judaica de discípulos do Messias Yeshua, que vivia entre os outros judeus, como eles, preocupava-se mais em sobreviver do que se desenvolver. Eles também chegaram até o Brasil, onde sua maior concentração se deu no nordeste, local onde foi construída a primeira sinagoga judaica das Américas, a Kahal Zur Israel, em Pernambuco. Aqui, nós estudamos online com a Comunidade Judaica Netzarim do Pará (Facebook Kehilat Netzarim PA).
Concluímos, por agora, nossa pesquisa acerca da trajetória da “seita dos nazarenos” de Atos 24:5 ao longo da história. É claro que haviam muitos outros detalhes a serem abordados, o que certamente nos renderia um livro. Mas espero que as informações publicadas aqui tenham sido precisas para fazer nossos leitores compreenderem que sempre houve um remanescente fiel que preservou a doutrina do Messias prometido, sem distorcer as verdades que Deus outrora comunicara nas Santas Escrituras aos seus servos, os profetas, o que não poucos infelizmente, fizeram ao longo do tempo.
Eis que eu estou com vocês todos os dias, até o fim desta era. Amén.
Matias/Mateus 28:20b

2 Comentários
[…] que está escrito na língua caldeu e síria, mas em caracteres hebraicos, e é usado pelos nazarenos até hoje (refiro-me ao Evangelho segundo os Apóstolos, ou, como geralmente se sustenta, o […]
[…] pessoas à comunidade do Messias e salvá-las. Mas infelizmente, com o tempo e o distanciamento da comunidade oficial, o falar em línguas ficou confuso de ser discernido e […]