A esmagadora maioria das traduções bíblicas cristãs (para não dizer todas) traduzem o versículo de João 20:28 da seguinte forma: “E Tomé respondeu, e disse-lhe: Senhor meu, e Deus meu!” (Almeida Corrigida Fiel). Entretanto, alguns versículos antes deste, o próprio Jesus alega que o Pai é o Deus dele, nas seguintes palavras: “… Vai para meus irmãos e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (v. 17). Ora, se Jesus alega ter um Deus, o Pai, como poderia ser ele o próprio Deus? Teria realmente Tomé o chamado Jesus de o Deus Todo Poderoso?
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Se Tomé realmente chamou Jesus de Deus, então deveríamos considerar o seguinte: Em Êxodo 4:16 e 7:1 Moisés também é chamado de Deus nesta mesma tradução bíblica que mencionamos acima, a respeitada Almeida Corrigida Fiel (ACF), como lemos a seguir.
¹⁴ Então se acendeu a ira do Senhor contra Moisés, e disse: Não é Arão, o levita, teu irmão? Eu sei que ele falará muito bem; e eis que ele também sai ao teu encontro; e, vendo-te, se alegrará em seu coração.
Êxodo 4:14-16 ACF
¹⁵ E tu lhe falarás, e porás as palavras na sua boca; e eu serei com a tua boca, e com a dele, ensinando-vos o que haveis de fazer.
¹⁶ E ele falará por ti ao povo; e acontecerá que ele te será por boca, e tu lhe serás por Deus.
¹ Então disse o SENHOR a Moisés: Eis que te tenho posto por deus sobre Faraó, e Arão, teu irmão, será o teu profeta.
Êxodo 7:1 ACF
Ora, se a partir do versículo de Joao 20:28 consideramos Jesus o próprio Deus, por que não considerar Moisés também, já que em 2 versículos bíblicos o próprio Criador diz que ele seria “Deus”? Como resolver essa situação?
O que Tomé realmente disse para Jesus?
Nós precisamos entender que a Bíblia Sagrada não foi escrita em português, nem tão pouco com a mentalidade que temos hoje a respeito do Criador. A Bíblia foi escrita por profetas, escribas e sacerdotes israelitas, eles tinham determinados pensamentos a respeito do Divino e as palavras originais hebraicas com as quais se comunicavam e receberam de Deus as Escrituras tem significados específicos, cada uma dentro de seu devido contexto. Por isso, é necessário entrar no pensamento da época, conhecer detalhes da língua original com a qual Tomé se comunicava com o Senhor (que não era o grego), e então, a partir disso, fazer uma tradução em português mais apurada.
No texto grego do chamado “novo testamento” pelos cristãos, consta “theos moo” (θεός μοῦ). Isso é inevitavelmente traduzido por “meu Deus”, pois “theos” era a palavra usada pelos gregos para se referir às divindades em que acreditavam.
Mas, como eu disse, Jesus, cujo nome original é Yeshua, e seus discípulos, não se comunicavam em grego, eles se comunicavam em aramaico ou hebraico. Existem muitas provas disso que podem ser percebidas mesmo nas traduções bíblicas do grego, especialmente no relato (evangelho) de Marcos, onde várias frases do Senhor em aramaico ficaram registradas, provando que o texto em grego é, na verdade, uma tradução, e não o original (vide Mc 5:41, 7:34, 15:34, etc.). Porém, para não alongar muito nosso presente estudo, não vamos nos prender a isso agora; nossos leitores podem ler Atos 26:14 em qualquer tradução bíblica como exemplo, ou o estudo sobre o idioma que era falado na Palestina do 1º século, que já escrevemos aqui no blog.
Em suma, em ambos idiomas (aramaico e hebraico) a maioria das palavras vem da mesma raiz. Ou seja, eles são “idiomas irmãos”, e por isso muito parecidos, como o português e o espanhol. Então é necessário retornarmos às palavras que eles disseram em seu idioma original e extrair delas seus verdadeiros significados. Além disso, devemos considerar todo o contexto da época, bem como os ensinamentos das próprias Escrituras (o Tanakh).
Em aramaico, Tomé teria dito “elahi” ou “alahi“, e em hebraico “elohai“.
Ambas palavras são da mesma raiz, isto é, “eloah” (plural “elohim“). Essa palavra (ou o plural dela) foi usada nas Escrituras para se referir a coisas diferentes, vejamos:
- a Deus (Gn 1:1),
- a autoridades do povo israelita (Êx 21:6; 22:8-9),
- divindades das crenças de outras nações (1 Rs 11:33),
- seres celestiais (Sl 89:6),
- e até a fenômenos fortes da natureza ou outras situações (Êx 9:28; Gn 30:8).
Em suma, as palavras “el“, “eloah” e “elohim” (todas da mesma raiz e significado), designam algo forte, poderoso, ou alguém que tem autoridade, e não necessariamente um deus.
Só por aqui já verificamos que não havia problema algum em Tomé chamar Jesus (Yeshua) de elohim, eloah ou el, pois, como vimos, outras autoridades do povo israelita também foram chamadas dessa forma. E isso também explica porque o próprio Criador fez de Moisés “Deus”, isto é, “elohim”, como lemos mais acima. Pois na verdade este profeta estava representando a autoridade divina, e não necessariamente tornou-se o próprio Deus ou um deus.
No Salmo 82, vs. 1 e 6, por exemplo, os juízes do povo israelita são considerados representantes da própria autoridade divina, porque Deus outorgou a eles poder para julgar seu povo. Por isso ali são chamados de “elohim” também.
Logo, aqueles que foram feitos “elohim” nas Escrituras são simplesmente representantes da autoridade divina, ou pessoas que de alguma forma receberam poder ou autoridade para julgar, liderar ou tomar decisões. Assim, para não confundir nossa mente, não precisamos necessariamente traduzir elohim por “Deus” todas as vezes, porque nem mesmo as traduções bíblicas mais comuns fizeram isso, como vimos nos exemplos citados mais acima.
Então, o que realmente Tomé tinha em mente ao chamar Yeshua de “elohai” (“meu elohim”)?
Ele certamente o considerava o representante da autoridade do próprio Deus, o porta-voz Dele, o chefe de seu povo, um profeta que fala em Sua autoridade, à semelhança do próprio Moisés (vide Dt 18:15). Tomé considera seu Mestre o líder e guia da nação israelita, como profetizado nas Escrituras (vide Mq 5:2). Se considerarmos essa contextualização do idioma original da Bíblia, Tomé não necessariamente teria dito que Jesus é o próprio Deus.
Isso não parece mais coerente, visto que, como mencionamos no início deste presente estudo bíblico, o próprio Jesus chama o Pai de “meu Deus” no mesmo capítulo? (veja o v. 17)
E isso também se repete em outros versículos, como Ap 3:12. Além disso, seus próprios discípulos diziam que o Pai é o Deus dele, basta ver Rm 15:6, 2Co 1:3, 11:31, Ef 1:3,17, 1Pe 1:3, Ap 1:6 etc.
Ora, se o próprio Jesus diz que tem um Deus (e seus discípulos também o dizem), então não faz sentido algum ele ser o próprio Deus. Além disso, ele mesmo diz especificamente que o Pai é o único Deus verdadeiro, em João 17:3. Então, se o Pai é o único Deus, não existe nem um outro, nem mesmo um chamado “deus filho”, ou qualquer outro ser que chamem de “deus” por aí (de acordo com as palavras do próprio Jesus).
Então, se Tomé não chamou Jesus de “meu Deus”, qual seria a tradução correta para João 20:28?
Cada palavra original hebraica/aramaica das Escrituras deve ser traduzida para outros idiomas de acordo com seu devido contexto, pois uma mesma palavra tem várias traduções, ainda que todas conectadas entre significados semelhantes, porque são da mesma raiz.
Sinceramente, a maior dificuldade nem se encontra na tradução das palavras originais, mas na mentalidade e doutrina que se formou ao longo das eras, que obviamente não se desenvolveram com o povo inspirado por Deus a escrever a Bíblia. E como certas doutrinas já há muito tempo são comuns em nosso mundo ocidental, qualquer mudança brusca na tradução de certos versículos bíblicos soaria como uma adulteração doutrinária e até mesmo uma blasfêmia para muitas pessoas. Então, os que tentam fazer isso, ou seja, “consertar” o que foi traduzido de modo distorcido e confuso, são logo classificados como falsos profetas, enviados de satanás, desviados, descrentes, blasfemos e coisas semelhantes.
Mas a Bíblia Sagrada não foi escrita em português, como eu disse antes, tão pouco pela mente de teólogos que comumente conhecemos nas religiões mais comuns. Então, vamos verificar agora qual foi a frase original que Tomé disse em aramaico quando falou com o Senhor.
As palavras de Tomé em João 20:28 no idioma original.
No texto bíblico original em aramaico, que pode ser acessado no site obohu.cz/bible, lemos o seguinte:
וַענָא תָּאומַא וֵאמַר לֵה מָרי וַאלָהי
va’na’ tha’vma’ ve’mar leh mari va’lahi
Pelas informações compartilhadas até aqui, nós já podemos ter uma noção da tradução deste texto, mas para confirmar tal conhecimento, eu consultei a Comunidade Judaica Netzari, com quem eu estudo desde julho de 2021, e as possíveis traduções para essas palavras são:
- E respondeu Tao’ma e lhe disse: Meu Mestre e Meu poderoso.
- E respondeu Tao’ma e lhe disse: Meu Mestre e Minha autoridade.
- E respondeu Tao’ma e lhe disse: Meu Mestre e Meu chefe.
- E respondeu Tao’ma e lhe disse: Meu Mestre e Meu juiz.
Logo, Tomé está usando dois títulos que denotam dois tipos de autoridade:
- Mari, que é “meu Mar” (senhor ou mestre); isto é, uma autoridade de ensino) e
- Elahi, que é “meu Elaha“; ou seja, uma autoridade de governo ou judicial.
Tudo isto quer dizer que, para o Mestre Yeshua, só o Pai é Deus e só Ele deve ser cultuado como tal, conforme lemos em Lc 4:8 (cf. Dt 6:13), e para seus discípulos, que como ele também eram judeus, considerar qualquer outro ser como Deus era um grave pecado, vide Êx 20:23 e Dt 5:7, por exemplo.
Por fim, como concluímos agora, a palavra elohim (ou elaha) não designa necessariamente uma divindade, mas alguém que tem poder/autoridade, um soberano. Para o Senhor Jesus só o Pai é Deus, sendo este o Deus dele também. Para seus discípulos, bem como para Tomé, Yeshua é guia e líder do povo de Deus.
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